28 de fevereiro de 2026

​Europa em choque, Oriente Médio em chamas: Brasil pode ser o fiel da balança? 

A fragilidade da ordem multilateral e a ascensão de potências regionais redefinem as dinâmicas de poder
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O cenário geopolítico mundial se encontra em um ponto de inflexão, com a Europa pressionada por desafios internos e externos, e o Oriente Médio emergindo como o principal foco de risco de curto prazo. A fragilidade da ordem multilateral e a ascensão de potências regionais redefinem as dinâmicas de poder, exigindo uma reavaliação das estratégias globais e locais.

Diretor executivo para as Américas da Eurasia Group, Christopher Garman aponta que a defesa da Ucrânia, embora tenha fortalecido a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) – um resultado não desejado por Putin –, serviu como um “wake-up call” para a Europa, ou seja, um chamado a despertar. 

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De acordo com o executivo, a percepção de que os Estados Unidos não podem mais garantir sozinhos a segurança europeia, impulsionada por políticas domésticas americanas e o “desprezo” de Donald Trump pela Europa, levou a um consenso entre a elite política do continente.

Há uma necessidade urgente de investimento maciço na indústria bélica para desenvolver capacidades de defesa autônomas e reduzir a dependência do “arco de defesa americano”.

Além da segurança, diz, a Europa enfrenta desafios econômicos significativos. A busca por maior competitividade e reformas estruturais é crucial, mas a opinião pública, cada vez mais polarizada e inclinada a partidos populistas, representa um obstáculo.

Garman destaca que a média de aprovação popular nos três principais países europeus – Reino Unido, França e Alemanha – é de apenas 21%, com o apoio a partidos populistas crescendo de 10% para 40-50% em 20 anos.

Essa “reviravolta importante da opinião pública” pode impedir a execução de planos econômicos e de segurança, apesar de a elite “mais centrista” ter “acordado” para os desafios.

O especialista participou do podcast Outliers InfoMoney, apresentado por Clara Sodré e Fabiano Cintra.

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Rússia e Oriente Médio: Cenários de Risco

Sobre a Rússia, a avaliação é de um país “enfraquecido e perigoso”. Embora as sanções não tenham levado ao “desastre econômico” previsto por alguns analistas, a economia russa se tornou “muito mais como uma economia voltada para a guerra”.

O apoio doméstico a Putin permanece forte, e o regime está consolidado. No entanto, a economia começa a mostrar “sinais de fragilidade”, apesar de ter refeito laços com a China e outros parceiros.

“Garman enfatiza que Putin “não vai desistir tão cedo dessa guerra”, e a Eurasia Group não está otimista com o fim do conflito na Ucrânia, dada a intransigência de ambos os lados.”

Enquanto isso, o Oriente Médio é apontado como o “principal risco de cauda geopolítico nesse próximo mês, dois meses”. A grande questão a curto prazo é a possibilidade de uma ação militar “maior dos Estados Unidos e Israel contra o Irã”.

A Eurasia Group acredita que a resposta é “sim”, com a Casa Branca inclinada a uma ação militar para “decapitar o regime” iraniano. A aposta é que este é o momento de “reduzir e fazer uma mudança do regime” no Irã, que estaria “fragilizado depois da guerra do ano passado”, com sua capacidade bélica “severamente destruída”.

O risco de uma retaliação iraniana, caso se sinta “encurralado sem nada a perder”, é a tentativa de fechamento do Estreito de Hormuz ou ataques a instalações na Arábia Saudita, o que poderia impactar o preço global do petróleo.

No entanto, Garman ressalta que a capacidade do Irã de sustentar um bloqueio é limitada, e um eventual fechamento seria “temporário”. A longo prazo, o risco no Oriente Médio “estruturalmente caiu” devido ao enfraquecimento do Irã e sua menor capacidade de financiar aliados como Hezbollah e Hamas, gerando um novo “equilíbrio de poder” na região.

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Brasil: Oportunidades em um Mundo Fragmentado

Em um mundo cada vez mais fragmentado, a pergunta é como o Brasil se posiciona. Garman argumenta que, embora “todo mundo perca com esse novo mundo” devido à incerteza e ao uso de “armas econômicas”, o Brasil está “muito bem posicionado perante os seus pares com essas potências médias”.

O país é uma “potência no agronegócio”, com grande área cultivável, e uma “potência energética”, com a produção de petróleo em ascensão.

Além disso, possui a segunda maior reserva de terras raras globais, ativos que “vão crescer em valor ao longo do tempo” em um cenário de preocupação com segurança alimentar, energética e de minerais críticos.

A vulnerabilidade chinesa e a quebra da aliança transatlântica com os Estados Unidos têm levado a uma maior busca por diversificação de parcerias.

A União Europeia, a China e até mesmo a Índia e o Canadá estão buscando estreitar laços com o Brasil.

O país, por não depender “exclusivamente da China ou dos Estados Unidos”, possui um “grau de liberdade” que o torna atraente para investimentos.

O forte fluxo de capital estrangeiro, com mais de R$ 26 bilhões em janeiro, e a valorização da bolsa brasileira são reflexos desse cenário positivo.

Desafios Internos e o Futuro Fiscal

No entanto, o “grande calcanhar de Aquiles” do Brasil é o lado fiscal. A preocupação do investidor, tanto estrangeiro quanto doméstico, é se o próximo governo “vai atacar o grande calcanhar de Aquiles fiscal que a economia brasileira tem”.

Uma expansão fiscal descontrolada dificulta a capacidade do Banco Central de reduzir juros, tornando a trajetória da dívida insustentável.

Garman prevê que, caso o atual presidente seja reeleito, um “ajuste fiscal xoxo” é mais provável, o que pode reduzir o senso de urgência para reformas mais profundas. A eleição de um candidato da oposição, por outro lado, tenderia a um ajuste fiscal mais robusto.

O especialista alerta para o risco de um “equilíbrio de complacência”, onde um ajuste fiscal mínimo, combinado com um cenário externo benigno, pode ancorar expectativas e fortalecer o câmbio, mas sem resolver os problemas estruturais.

A degradação institucional e a instabilidade da segurança jurídica, exemplificadas pela “crise do Banco Master”, também são fatores de preocupação para os investidores locais, que enfrentam um “altíssimo custo de capital” com a taxa Selic a 15%.

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