15 de março de 2026

​Mercado comprou fim rápido da guerra, mas pode ter sido otimista demais, alerta UBS 

Reversão após fala de Trump não deve provocar corrida do investidor por ativos de risco, defende Mark Haefele, CIO do UBS Wealth Management: “Agora não é o momento de ser ousado”
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A forte reversão dos mercados na segunda-feira (9), depois de Donald Trump sinalizar que a guerra com o Irã poderia acabar “muito em breve” e de discutir a crise do petróleo com Vladimir Putin, pode ter ido longe demais, na visão do UBS. Para o banco, os investidores não deveriam simplesmente assumir que a crise terá uma saída rápida só porque o presidente americano falou.

A reação do mercado à fala de Trump foi expressiva. Depois de encostar em US$ 120, o Brent recuou mais de 10%, com alívio também em bolsas e outros ativos de risco. A leitura predominante foi a de que a ligação entre Trump e Putin, combinada com a fala do presidente americano sobre uma possível desescalada rápida, reduzia o risco de um choque prolongado de oferta de petróleo.

Para o UBS, porém, essa leitura pode ser otimista demais. “Achamos que os investidores devem ser cautelosos em simplesmente assumir que o presidente Trump pode fechar um acordo e que os fluxos de energia serão retomados em breve”, diz Mark Haefele, CIO global do braço de Wealth Management do UBS, em relatório.

O estrategista acrescenta que, embora o fim das hostilidades e a retomada dos fluxos até o fim de março ainda sejam o cenário mais provável, há “algum risco de decepção do mercado”. Ele argumenta que ainda não está claro nem se surgirá uma liderança “mutuamente aceitável” no Irã nem se a navegação por Ormuz voltará de forma relevante no curto prazo.

O impasse em Ormuz também pode durar mais do que o mercado passou a embutir após o alívio de segunda-feira. Haefele lembra que os EUA ofereceram seguro para cobrir a perda de embarcações atingidas por mísseis ou drones, mas observa que isso não foi suficiente para fazer o tráfego voltar de forma material.

“Os navios podem continuar sem disposição para atravessar o estreito”, afirma. Para os armadores, diz, a conta não envolve apenas seguro, mas também a decisão racional de esperar enquanto outros testam a rota primeiro.

A cautela do UBS ganhou força já nesta terça-feira (10). O secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, afirmou que este seria o dia mais intenso de ataques contra o Irã desde o início da campanha, enquanto Israel e EUA mantinham a pressão militar e Teerã seguia reagindo.

No curto prazo, explica Haefele, a principal variável é saber se haverá acordo político ou se os comboios navais dos EUA conseguirão reabrir parcialmente a rota em Ormuz. E três pontos serão cruciais nas próximas semanas: o tamanho logístico desses comboios, quantos armadores estarão dispostos a aderir e se a travessia conseguirá ocorrer sem danos. A avaliação é que é possível que os comboios dos EUA levem o tráfego de navios de volta a cerca de 50% dos níveis pré-conflito.

Mais à frente, o UBS destaca que o verdadeiro teste para os mercados será o comportamento do petróleo ao longo do tempo. Se o barril seguir elevado por meses e a navegação continuar limitada, o choque deixa de ser apenas geopolítico e passa a contaminar inflação, confiança e crescimento.

Nos cálculos do UBS, se o petróleo à vista ficar acima de US$ 90 por mais de seis meses, a inflação dos EUA subiria 60 pontos-base em 2026. Se ficar acima de US$ 120 no mesmo período, o impacto seria de 150 pontos-base.

Diminua o risco – ou fique parado

A conclusão prática do banco é menos dramática do que o noticiário recente pode sugerir. Para o investidor já diversificado, com horizonte longo e capacidade de atravessar volatilidade, a recomendação central é permanecer investido, já que o conflito não seria capaz de alterar de forma relevante onde os mercados estarão no horizonte mais longo.

Para quem quer navegar a crise de forma mais tática, a orientação é reduzir risco de forma progressiva se o conflito persistir, com três frentes: adicionar hedge, ampliar diversificação com títulos de qualidade, ouro e commodities e cortar exposição cíclica em ações e crédito mais arriscado. “Achamos que os investidores devem construir um plano para reduzir progressivamente os riscos de portfólio quanto mais a crise durar.”

Na parte de bolsa, a UBS tenta escapar dos dois extremos. “Não acreditamos que os investidores em ações devam ‘correr para as colinas’, mas tampouco deveriam ‘comprar a queda’ por reflexo”, diz o CIO. “Agora não é o momento de ser ousado.”

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