12 de março de 2026

​Processadores de cacau alertam para perdas bilionárias em caso de mudança no drawback 

Governo estuda reduzir prazo do drawback para seis meses, mas setor adverte que medida pode diminuir exportações de derivados de cacau em até R$ 3,5 bi e afetar até 5 mil empregos
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A proposta em estudo pelo governo federal de editar uma medida provisória modificando o regime de drawback na cadeia brasileira de cacau pode resultar em perda de até R$ 3,5 bilhões em exportações de derivados do fruto nos próximos cinco anos, alerta a Associação Nacional da Indústria Processadora de Cacau (AIPC). A entidade calcula ainda que a medida coloca em risco 5 mil empregos.

O drawback é um instrumento que permite a suspensão de tributos incidentes sobre insumos importados quando destinados à produção de bens para a exportação. Esse mecanismo, adotado em todo mundo, serve para evitar a cumulatividade de impostos na cadeia produtiva, melhorando a competitividade dos exportadores brasileiros.

Recentemente, o ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, confirmou a intenção de reduzir o atual prazo de drawback, dos atuais dois anos para seis meses. Esse medida vem na sequência de outra, que suspendeu temporariamente a importação de cacau da Costa do Marfim.

Mas a análise do setor é que a redução do prazo para seis meses vai criar um descompasso entre o ciclo industrial e comercial da atividade, além das exigências fiscais do regime. A AIPC lembra que a produção de derivados envolve a importação da amêndoa, o processamento industrial e o cumprimento de contratos internacionais frequentemente firmados com vários meses de antecedência.

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A entidade destaca que dados consolidados do setor indicam que 92% dos contratos de exportação possuem prazo superior a 180 dias, o que torna incompatível a redução do prazo vigente hoje.

Além disso, a associação diz que a mudança ocorre em um contexto em que o Brasil não produz cacau suficiente para abastecer sua indústria processadora. Atualmente, cerca de 22% das amêndoas utilizadas no processamento nacional são importadas, sendo 99% das operações realizadas por meio do regime de drawback e vinculadas à exportação de derivados.

Ou seja, sem esse mecanismo, a indústria perde competitividade no mercado internacional e reduz sua capacidade de processamento.

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Projeções indicam que, no horizonte de cinco anos, a medida pode resultar em redução da moagem entre 10% e 20%, aumento da ociosidade industrial para mais de 35% e perda acumulada de exportações entre US$ 400 milhões e US$ 700 milhões, o equivalente a até R$ 3,5 bilhões, segundo o levantamento da AIPC.

Outro efeito esperado é que a diminuição da atividade industrial acabe também por reduzir a demanda por amêndoa nacional. As estimativas indicam que o consumo interno de cacau pode cair entre 40 mil e 80 mil toneladas, afetando diretamente a base produtiva.

“Atualmente, a indústria brasileira possui capacidade instalada de cerca de 275 mil toneladas, mas processou aproximadamente 195 mil toneladas em 2025, operando com quase 30% de ociosidade”, alerta a presidente-executiva da AIPC, Anna Paula Losi.

A associação lembra que um outro estudo, elaborado pela Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (FIEMG), apontou a possibilidade de retração da atividade econômica, redução das exportações e pressão inflacionária decorrente do aumento dos custos da matéria-prima.

“Os resultados do estudo indicam que o efeito líquido sobre a economia brasileira é negativo. A medida tende a elevar custos ao longo da cadeia produtiva, reduzindo a produção e a competitividade da indústria e resultando em perda de postos de trabalho”, explica o economista chefe da FIEMG, Joao Gabriel Pio.

Para a AIPC, o enfrentamento da queda recente do preço do cacau exige instrumentos adequados e diálogo colaborativo entre os diferentes elos da cadeia. Segundo a entidade, existem instrumentos mais eficazes para apoiar o produtor, como mecanismos de preço mínimo, política de estocagem, crédito direcionado e ampliação do acesso a mercados para a amêndoa brasileira.

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