Sem redes sociais, o baiano viraliza com o gingado e mostra que versatilidade pode, sim, conversar com identidade
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“Daí ela me disse que o comercial ia passar no Brasil inteiro, menos na Bahia. ‘Pode começar de novo?’ E eu disse que é assim que eu falo, e é claro que não passei no comercial.”
A conversa aconteceu no início dos anos 2000, logo que Wagner Moura chegou no Rio de Janeiro para a estreia da peça A Máquina, do dramaturgo pernambucano João Falcão. A montagem marcaria o início de sua carreira e de outros jovens atores nordestinos, como Lázaro Ramos e Vladimir Brichta.
Duas décadas depois, Wagner representa o Brasil no Oscar 2026, concorrendo a melhor ator por O Agente Secreto, que também disputa a estatueta de melhor filme. Poucos meses antes, o filme de Kleber Mendonça Filho já o tinha feito entrar para a história do cinema como o primeiro brasileiro a levar o prêmio de melhor ator em Cannes e no Globo de Ouro.
De repórter a ator de novelas, passando por músico de banda universitária, teatro e filmes, o baiano que saiu do sertão aos 11 anos mostra que versatilidade conversa com identidade. Hoje, o reconhecimento da brasilidade no cinema mundo afora passa justamente por aquele “é assim que eu falo”, que ele disparou no passado.
Wagner é casado há 21 anos com a jornalista e artista visual Sandra Salgado, com quem tem dois filhos.
Quem é Wagner Moura
Wagner Maniçoba de Moura nasceu em Salvador, em 1976, mas passou parte da infância em Rodelas, pequena cidade do sertão baiano que acabou sendo inundada no fim dos anos 1980 após a construção de uma barragem no Rio São Francisco.
A mudança forçada da população para outra cidade marcou a memória de muitos moradores, entre eles o jovem Wagner, que chegou a aparecer ainda criança em uma reportagem de televisão sobre o deslocamento das famílias.
Na adolescência, voltou a Salvador, onde estudou jornalismo na Universidade Federal da Bahia (UFBA). Antes de se tornar ator, trabalhou como repórter de celebridades no programa Michelle Marie Entrevista, exibido pela TV Bahia. O contato diário com artistas acabou aproximando Moura do universo cultural, primeiro como observador, depois como participante.
Durante a universidade, também deu alguns passos no mundo da música. Foi vocalista da banda universitária Sua Mãe, conhecida na cena alternativa local no fim dos anos 1990.
O teatro surgiria pouco depois como caminho definitivo., nos anos 2000, quando Wagner Moura integrou o elenco da peça A Máquina, de João Falcão.
Início nas telas
Quase ao mesmo tempo que fazia teatro, começaram a surgir as primeiras oportunidades no audiovisual. A estreia no cinema veio na coprodução internacional Sabor da Paixão, estrelada por Penélope Cruz.
A experiência, no entanto, não deixou boas lembranças: anos depois, o ator contou em entrevistas que se sentiu mal tratado durante a produção, o que o fez refletir sobre as dificuldades enfrentadas por atores em papéis secundários.
O primeiro papel protagonista no cinema surgiu em Deus é Brasileiro, dirigido por Cacá Diegues e estrelado por Antonio Fagundes. O convite veio após a recusa de Selton Mello, episódio que o próprio Moura costuma lembrar como um daqueles acasos que mudam o rumo de uma carreira.
Na televisão, o reconhecimento do grande público veio com participações em novelas da Globo. Entre elas está Paraíso Tropical (2007), em que interpretou Olavo, o vilão que se tornou marcante na trama e ajudou a ampliar sua visibilidade nacional.
Entre teatro, televisão e cinema, Wagner Moura começou a construir uma trajetória marcada pela versatilidade, acumulando experiências que abririam caminho para papéis mais centrais no cinema brasileiro.
Leia também: Entenda como funciona a premiação do Oscar – e por que o favorito nem sempre vence
Do cinema brasileiro ao reconhecimento internacional
O salto definitivo de Wagner Moura no cinema veio poucos anos depois, com papéis que marcariam o cinema brasileiro dos anos 2000. Um dos primeiros foi em Carandiru (2003), dirigido por Hector Babenco, onde interpretou Zico, um dos detentos retratados na história inspirada no massacre ocorrido no presídio paulista.
Mas seria com Tropa de Elite (2007), de José Padilha, que Moura entraria definitivamente para a história do cinema nacional. No papel do capitão Nascimento, comandante do BOPE, o ator deu vida a um personagem que ultrapassou as telas e se tornou um fenômeno cultural no país. O filme venceu o Urso de Ouro no Festival de Berlim e alcançou enorme repercussão no Brasil.
Três anos depois, veio Tropa de Elite 2, outra grande bilheteria da história do cinema brasileiro. A continuação consolidou o ator como um dos nomes centrais da indústria cinematográfica nacional naquele momento.
A projeção internacional viria pouco tempo depois com a série Narcos, da Netflix (2015), em que interpretou o traficante colombiano Pablo Escobar. Para o papel, Wagner Moura precisou aprender espanhol e trabalhar intensamente o sotaque colombiano.
A força do Nordeste em O Agente Secreto
A parceria entre Wagner Moura e o diretor pernambucano Kleber Mendonça Filho em O Agente Secreto também reflete um momento de afirmação do cinema nordestino no Brasil. Ambientado na Recife dos anos 1970, o filme reúne no elenco e na equipe técnica diversos profissionais da região.
O ator destaca que essa presença vai além do cenário ou da história contada na tela. Segundo ele, a produção reúne atores, técnicos e profissionais criativos nordestinos em várias áreas do filme.
“Desde a direção de fotografia até a produção, tem muita gente do Nordeste trabalhando.”
Mas essa força criativa, segundo Wagner, ainda enfrenta um preconceito antigo, que costuma classificar produções de fora do eixo Rio–São Paulo como “regionais”.
“Insistem em dizer que o cinema feito por essa galera é regional. Não é regional, é Brasil.”
A brasilidade como marca de Wagner Moura
Mesmo com carreira consolidada no exterior, Wagner Moura costuma reforçar publicamente que sua identidade artística está profundamente ligada às origens nordestinas. Para ele, essa ligação não é apenas biográfica, mas parte da forma como se apresenta no cinema internacional.
Em entrevista ao canal Os Nordestinos pelo Mundo, destacou que não vê motivo para suavizar ou esconder a própria forma de falar.
“Quando estou nos Estados Unidos, meu sotaque é esse. Eu falo assim, e represento uma galera gigante nesse país que também fala com sotaque”, disse.
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