26 de março de 2026

​Iniciativa de Buffett e Gates para bilionários doarem metade da fortuna se esvazia 

O Giving Pledge virou símbolo de uma era que exaltava a filantropia, mas hoje enfrenta rejeição crescente
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Apenas alguns meses depois de Warren Buffett reunir uma série de jantares sofisticados pelos Estados Unidos para coletar assinaturas para algo chamado Giving Pledge, ele se mostrava otimista em relação à sua nova ideia de filantropia.

Sentado em maio de 2010 à mesa redonda de Charlie Rose, ao lado de seus parceiros no esforço — a sorridente Melinda French Gates e seu então marido, Bill Gates — Buffett previa algo revolucionário.

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“Estamos falando de trilhões ao longo do tempo”, disse Buffett. “A ideia é estabelecer uma nova norma.”

Um a um, os indivíduos mais ricos do mundo seriam persuadidos a comprometer mais da metade de seu dinheiro com causas sem fins lucrativos. “Em apenas alguns meses já fizemos um bom progresso”, disse Buffett naquele dezembro, quando mais 17 famílias aderiram.

Uma semana depois, Buffett e os Gates fizeram a primeira de duas visitas ao presidente Barack Obama para falar sobre o compromisso no Salão Oval. Eles voltaram à Casa Branca sete meses depois, quando Obama fez muitos elogios à iniciativa em uma sessão de 30 minutos com algumas dezenas de signatários, segundo uma pessoa presente.

Naqueles tempos de euforia, era inegavelmente algo “na moda” assinar o Giving Pledge, que começou com a entrevista leve de Rose na TV e uma reportagem de capa da revista Fortune.

O projeto nasceu em uma era em que figuras como Gates simbolizavam uma cultura humanitária que defendia tanto o grande capitalismo quanto a grande filantropia.

Ser visto como um “bom bilionário” que retribui à sociedade era importante. Republicanos e democratas, igualmente, abraçavam as prioridades da Fundação Gates — educação nos EUA, saúde global e igualdade de gênero.

Agora, tornou-se estiloso — num estilo rebelde típico do Vale do Silício — criticar o Giving Pledge.

Nos últimos dois anos, cresceu uma reação entre os bilionários que são o público-alvo da iniciativa. Um de seus primeiros signatários sugeriu que estava “alterando” seu compromisso para considerar seus empreendimentos com fins lucrativos. Outro assinou e, em um caso sem precedentes, depois retirou sua assinatura.

Nada mais de visitas ao Salão Oval: a equipe do presidente Donald Trump descreve o compromisso quase como uma piada. Há até uma campanha discreta de um bilionário da tecnologia pró-Trump para destruí-lo.

Em vez de aderir à filantropia apartidária, alguns bilionários em busca de impacto estão optando por um caminho mais direto, gastando mais do que nunca em eleições americanas.

O espírito da época mudou muito rapidamente.

Aaron Horvath, um sociólogo que estudou o Giving Pledge, chamou-o de uma “cápsula do tempo” daquela era de 2010. “Parece coisa do passado”, disse. Segundo ele, os bilionários hoje pensam: “Posso ficar na minha e continuar ganhando dinheiro. Não preciso mais participar dessa encenação filantrópica.”

Esta é uma era de capitalismo mais voraz, de bilionários inclinando-se à direita e avançando ao se alinhar a um governo disposto a distribuir favores. Muitos dos bilionários em ascensão hoje veem a filantropia com desdém, como nada além de relações públicas.

Nessa visão de mundo, a verdadeira forma de retribuir é por meio do sucesso nos negócios, com benefícios para a economia dos Estados Unidos. Elon Musk, a pessoa mais rica do mundo, já disse que seus negócios “são filantropia”.

E isso sem mencionar como a percepção pública de um dos principais nomes do compromisso, Bill Gates, foi abalada por suas ligações com Jeffrey Epstein. O escândalo levou ao seu divórcio de Melinda French Gates em 2021 e à saída dela da fundação que administra o compromisso, em 2024.

A própria Fundação Gates, por sua vez, perdeu relevância política. Suas causas, como saúde global, têm sido duramente atacadas pelo governo Trump.

Peter Thiel, bilionário da tecnologia e crítico frequente de Gates, disse em entrevista que incentivou, em conversas privadas, cerca de uma dúzia de signatários a abandonar o compromisso. “A maioria com quem conversei ao menos expressou arrependimento por ter assinado”, afirmou. Ele próprio tem ligações com Epstein, mas chama o compromisso de um “clube falso de baby boomers com ligação com Epstein”.

John Arnold, bilionário de Houston que enriqueceu como operador de energia e foi um dos primeiros signatários, disse que o que parece ser um momento difícil para o compromisso é, na verdade, um momento difícil para o setor sem fins lucrativos.

“Houve uma reação contra muitas doações filantrópicas”, disse. “E o compromisso acabou sendo arrastado por isso, porque se tornou sinônimo de doações de bilionários.”

A desaceleração

O Giving Pledge de fato conseguiu, como Buffett esperava, estabelecer algo próximo de uma nova “norma” na filantropia. Mais de 250 famílias aderiram, incluindo as de Mike Bloomberg, Sam Altman e MacKenzie Scott. O compromisso tornou-se uma forma de os ultrarricos anunciarem que haviam chegado ao topo.

Scott assinou em 2019, após sua separação de Jeff Bezos. Um ano depois, iniciou sua doação filantrópica massiva e acelerada. Arnold é outro caso de sucesso. A Forbes estimou que ele e sua esposa, Laura, já doaram mais de 40% de seu patrimônio líquido, quase tudo após a assinatura — e eles ainda estão na casa dos 50 anos.

“Nos primeiros anos, o Giving Pledge ajudou a construir normas onde quase não existiam”, disse Taryn Jensen, que hoje lidera a iniciativa. “Nosso objetivo é continuar construindo uma cultura em que doar seja a norma e oferecer suporte para transformar compromisso em ação.”

Mas o ritmo de adesões despencou nos últimos anos. Nos primeiros cinco anos, 113 pessoas assinaram; nos cinco seguintes, 72; e nos cinco posteriores, apenas 43, incluindo apenas quatro em 2024. O ano passado foi relativamente positivo pelos padrões recentes, com 14 signatários, incluindo Craig Newmark, da Craigslist, e Drew Houston, do Dropbox.

“A proposta de valor mudou por causa da erosão da confiança geral e da polarização de tudo nos últimos anos”, disse Tom Tierney, que assessora doadores ricos na Bridgespan e integra o conselho da Fundação Gates. “Hoje é mais provável ser criticado por doar grandes quantias do que elogiado. Isso provavelmente não era tão verdadeiro há 15 anos”, afirmou, citando a “controvérsia” em torno da riqueza extrema.

Os primeiros signatários estavam, em grande parte, nos círculos sociais pessoais de Buffett e dos Gates — celebridades empresariais americanas autênticas, recebidas com admiração pela imprensa. Hoje, os signatários são cada vez mais estrangeiros ou menos conhecidos. A cobertura da mídia é protocolar.

Os requisitos para participação não são muito elevados. Os signatários devem concordar com um comunicado à imprensa e, geralmente, com uma carta publicada no site da fundação sobre o compromisso. São convidados para um encontro anual opcional com outros bilionários, realizado em um resort de luxo.

E depois vem a doação propriamente dita, para a qual não há mecanismo de fiscalização. Desde o início, Buffett enfatizou a Rose que se tratava apenas de um “compromisso moral”.

Uma pesquisa publicada no verão passado por críticos de esquerda do compromisso argumentou que muito poucos signatários estavam, de fato, doando seu dinheiro em ritmo suficiente para reduzir seu patrimônio. A maioria das doações filantrópicas iria para organizações intermediárias, como suas próprias fundações, ou ocorreria em massa após a morte — o que tecnicamente cumpre o compromisso.

Jensen disse que muitos signatários “já cumpriram seus compromissos ou estão avançando de forma consistente para isso”.

Ainda assim, para alguém à direita como Thiel, há um ponto simbólico em sua campanha contra o compromisso.

“Eu tenho desencorajado fortemente as pessoas a assiná-lo e depois incentivado, com cautela, que retirem suas assinaturas”, disse Thiel. Sua própria filosofia filantrópica se concentra em negócios com fins lucrativos; sua fundação financia principalmente jovens que abandonam a faculdade para criar startups.

Vinod Khosla, investidor próximo de Bill Gates, pediu a Thiel que assinasse no início dos anos 2010. Thiel disse a Khosla que não considerava aquilo uma comunidade de alto status.

“Eles conseguiram um número incrível de adesões nos primeiros quatro ou cinco anos, mas parece que o projeto perdeu fôlego”, disse Thiel, sugerindo que algumas pessoas que assinam hoje nem sequer são bilionárias. (O compromisso afirma que é aberto a quem tem patrimônio inferior a US$ 1 bilhão, mas “planeja doar pelo menos US$ 500 milhões e está em posição de fazê-lo”.) “Não sei se a marca se tornou negativa, mas parece muito menos importante participar.”

Ron Conway, investidor e signatário próximo de Bill Gates, disse que comentários como os de Thiel não fazem sentido para ele. Conway, ativo na política democrata, afirmou que o Giving Pledge inclui muitos conservadores e moderados.

“Alguns dizem que o Giving Pledge está alinhado a causas liberais, ou que é ‘woke’, por assim dizer, e isso não poderia estar mais longe da verdade”, afirmou.

A reação ganha força

O primeiro sinal concreto de desgaste surgiu dois verões atrás com Brian Armstrong, cofundador da Coinbase, que havia assinado o compromisso em 2019 por incentivo de amigos de Bill Gates, incluindo Conway.

Armstrong, um executivo do setor cripto conhecido por seu desprezo por políticas liberais, participou de pelo menos um encontro do grupo. Mas, apenas cinco anos depois, saiu abruptamente. Em um dia de meados de 2024, sua carta desapareceu do site do compromisso.

A organização afirmou que sua saída foi voluntária. Ele nunca explicou publicamente o motivo e não respondeu aos pedidos de comentário.

Scott Bessent, secretário do Tesouro de Trump, também criticou a iniciativa. No evento DealBook, no início de dezembro, descreveu um “pânico entre a classe bilionária” durante a crise financeira global que levou à criação do compromisso, que classificou como “bem-intencionado”, mas “muito vago”.

Uma realização mais “concreta”, disse, seria algo como a doação de US$ 6 bilhões de Michael Dell e Susan Dell, que não assinaram o compromisso, mas financiam contas que podem crescer com o mercado para formar poupança para crianças de baixa renda — combinando filantropia e capitalismo.

Nem todos os bilionários abandonaram a filantropia, claro. “É triste ver que muitos indivíduos ricos (especialmente na tecnologia) adotaram recentemente uma visão cínica e niilista de que a filantropia é inevitavelmente fraudulenta ou inútil”, escreveu Dario Amodei, cofundador da Anthropic, em um ensaio de janeiro.

Ainda assim, refletindo o momento atual, o próprio Amodei, de 43 anos, não assinou o compromisso. A Anthropic tem vínculos com o movimento do altruísmo eficaz, que prioriza doações, mas é mais focado do que o Giving Pledge em medir sua efetividade.

Melinda French Gates apresentou recentemente o sucesso do compromisso como relativo. (Ela e Gates recusaram entrevistas.) Em dezembro, disse à Wired que alguns signatários doam em “em massa”, mas muitos outros não. “Alguns estão fazendo isso, e outros estão tentando ou ainda não estão prontos”, afirmou.

“Gostaria que tivéssemos sido ainda mais bem-sucedidos com o compromisso do que fomos até agora”, disse. “É um desafio contínuo.”

c.2026 The New York Times Company

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