Em São Paulo, o principal termômetro do país, a taxa de vacância dos escritórios de alto padrão caiu para o menor nível em 14 anos
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O vento mudou — e as empresas já ajustaram as velas. Depois de anos em que o trabalho remoto parecia ter decretado o fim dos escritórios, o mercado imobiliário corporativo dá sinais claros de reocupação — e de forma vigorosa. Em São Paulo, o principal termômetro do país, a taxa de vacância dos escritórios de alto padrão caiu para 14,7% no fim de 2025, o menor nível em 14 anos, enquanto o volume de locações atingiu recorde histórico.
Não é um movimento isolado. Grandes empresas, no Brasil e no exterior, passaram a rever suas políticas e a exigir maior presença física das equipes. Gigantes como Amazon, JPMorgan, Dell, Uber e Starbucks estão entre as que reduziram o home office ou retomaram o presencial de forma mais rígida . No Brasil, casos como Nubank e Bradesco indicam a mesma direção, com a reocupação de escritórios e o aumento gradual dos dias presenciais.
A mudança não acontece sem motivo. Relatórios recentes de consultorias globais — como Deloitte Human Capital Trends e Gartner Future of Work — e estudos compilados pela HiBob indicam que as empresas estão revisando seus modelos de trabalho após o período de experimentação da pandemia. Levantamentos como o Hays Salary Guide e o DHR Global Workforce Survey mostram que a flexibilidade se consolidou como fator central de decisão profissional, aparecendo entre as três principais prioridades para a maioria dos trabalhadores e como variável crítica para retenção em mercados com escassez de talentos.
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A lógica por trás desse movimento é conhecida — e, de certa forma, antiga. Estudos mostram que o trabalho remoto pode comprometer dimensões críticas do desempenho organizacional. Pesquisas citadas por especialistas indicam que profissionais atuando exclusivamente de casa podem ser até 18% menos produtivos do que aqueles no escritório, além de apresentarem menor velocidade de aprendizado e queda na qualidade das entregas. A convivência física, dizem executivos e relatórios de mercado, acelera decisões, fortalece a cultura e melhora a execução.
Mas há um detalhe importante nesse retorno. Ele não é total — e dificilmente será. Dados de mercado indicam que mais da metade da jornada semanal já voltou a ser cumprida nos escritórios, mas sem eliminar o trabalho remoto, que segue como parte relevante da rotina profissional.
Se o escritório voltou ao centro da estratégia, o modelo híbrido deixou de ser uma concessão emergencial para se tornar parte permanente do pacote de trabalho. Mais do que isso: passou a funcionar como uma nova moeda de atração e retenção de talentos.
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Equilíbrio virou estratégia
O que emerge desse novo cenário não é uma volta ao passado, mas uma reorganização mais pragmática do trabalho. Empresas tentam encontrar um ponto de equilíbrio entre eficiência operacional e expectativa dos profissionais.
Esse movimento aparece de forma consistente em estudos como o Hays Salary Guide e o DHR Global Workforce Survey, que apontam a flexibilidade como um dos fatores mais relevantes na decisão de profissionais. Levantamentos indicam que mais da metade dos trabalhadores consideraria mudar de emprego diante da eliminação do trabalho remoto, evidenciando o peso estratégico do modelo híbrido em um mercado ainda marcado pela escassez de talentos qualificados.
Na prática, isso já aparece nas políticas adotadas por grandes companhias. Na Ford, por exemplo, a adoção de um modelo híbrido estruturado faz parte de uma proposta de valor que combina flexibilidade com alinhamento cultural e desempenho, refletida em indicadores como tempo de contratação abaixo da média de mercado e altos níveis de satisfação no onboarding. Já na JTI, a flexibilidade aparece integrada a benefícios personalizados e a uma estratégia baseada em escuta ativa, com 96% de participação na pesquisa de engajamento.
Esse ajuste responde a duas pressões simultâneas. De um lado, a necessidade de recuperar produtividade, acelerar decisões e fortalecer cultura organizacional. De outro, a expectativa dos profissionais por autonomia e qualidade de vida.
Eliminar completamente a flexibilidade tem custo. Pesquisas indicam que uma parcela relevante dos trabalhadores consideraria mudar de emprego diante de políticas mais rígidas de retorno ao presencial. Em um mercado ainda marcado por escassez de talentos qualificados, essa variável pesa.
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Flexibilidade como vantagem competitiva
Nesse novo arranjo, o híbrido passa a desempenhar um papel semelhante ao de outros benefícios corporativos — como plano de saúde, bônus ou programas de bem-estar.
Empresas que oferecem maior flexibilidade tendem a ganhar vantagem na disputa por talentos, especialmente em setores mais intensivos em conhecimento. Relatórios como o Future of Work, da HiBob, e estudos da Deloitte indicam que organizações que conseguem equilibrar autonomia e colaboração tendem a apresentar níveis mais altos de engajamento e retenção.
Na prática, isso também se reflete nos modelos adotados pelas empresas. Na Totvs, por exemplo, o modelo de gestão combina desenvolvimento contínuo, uso de dados e foco em habilidades humanas — como pensamento crítico, colaboração e comunicação — em um ambiente que integra tecnologia e flexibilidade como parte da estratégia de longo prazo.
Ao mesmo tempo, o retorno ao escritório também cumpre uma função estratégica. Ele não está mais associado apenas à execução do trabalho, mas a dimensões menos tangíveis — e mais difíceis de replicar no ambiente remoto.
Relatórios como o Gallup Workplace Report e o Gartner Future of Work destacam que cultura organizacional, aprendizado informal e desenvolvimento de lideranças são mais eficazes em ambientes com interação presencial frequente. A convivência cotidiana, que parecia dispensável durante a pandemia, volta a ser vista como ativo.
Não por acaso, o movimento de reocupação dos escritórios tem sido acompanhado por mudanças no próprio desenho dos espaços corporativos, cada vez mais voltados à colaboração e à interação.
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O fim de uma ilusão
Se, em algum momento, o home office foi tratado como solução definitiva, os dados recentes sugerem que essa leitura foi precipitada.
A experiência dos últimos anos mostrou que o trabalho remoto funciona — mas com limites. Ele entrega eficiência individual, mas pode comprometer aspectos coletivos essenciais para o desempenho das organizações, como aprendizado, velocidade de execução e alinhamento estratégico.
Por outro lado, a tentativa de retorno integral ao modelo presencial também encontra resistência. O que se consolidou, no fim das contas, foi um modelo intermediário, mais complexo e menos rígido.
O híbrido sobrevive — não como regra absoluta, mas como escolha estratégica.
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E talvez esse seja o ponto central dessa nova fase do trabalho. O debate deixou de ser binário. Não se trata mais de escolher entre escritório ou casa, mas de definir quando, como e por que cada um desses espaços faz sentido.
No fundo, o que está em curso é uma revalorização do equilíbrio. As empresas voltam ao escritório, os escritórios voltam a encher — mas a flexibilidade não sai de cena.
Ela apenas mudou de status. De solução emergencial, virou benefício.
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