3 de abril de 2026

​O boom da BYD e GWM vai fazer o carro usado ficar mais barato? 

A China entra no mercado brasileiro de carros com tecnologia, design, segurança e preços competitivos
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Quase 40% dos veículos importados emplacados no Brasil em 2025 vieram da China, segundo a Associação Brasileira dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea). O resultado tira o protagonismo dos automóveis vindos de países do Mercosul e do México pela primeira vez nas análises da entidade.

Se alguns consumidores tinham a percepção de que carros chineses tinham menos qualidade, a chegada de montadoras como a BYD e GWM no Brasil começou a virar essa chave.

Do ponto de vista do motorista, hoje, vários modelos chineses entregam tecnologia e qualidade, além de oferecer preços mais baixos e competitivos nos carros 0 km quando feitas determinadas comparações. Mas se você não está no grupo que dispõe dos valores para comprar modelos zero KM, aqui fica a boa notícia: a chegada desses montadoras pode movimentar o mercado a ponto de os usados ficarem mais baratos.

Qual a relação?

Milad Neto, diretor executivo da K.LUME Consultoria, explica que o mercado de usados depende do mercado de novos. Dessa forma, a chegada dos carros chineses no mercado pode reajustar para baixo os preços dos seminovos.

Diversas marcas tiveram que reposicionar seus modelos. “Onde existiu veículos chineses entrando, montadoras tiveram que mexer nos valores porque os carros entraram muito mais competitivos”, explica o especialista.

Ele destaca que esse movimento no segmento de usados é natural. “Pode ter uma mudança no segmento que empresas chineses entrarem. Elas trazem produto de qualidade, com tecnologia, design próprio e preço extremamente competitivo”, ressalta.

Ana Renata Paes Barreto, diretora geral da Cox Automotive do Brasil, avalia, porém, que só esse movimento não basta para o motorista de olho em trocar de carro. Na visão dela, a negociação deve ficar ainda mais árdua para os veículos seminovos. Isso porque, além de preços mais baixos, os bancos terão de fazer concessões na aprovação do crédito para que o consumidor possa fechar o negócio.

“Hoje, os bancos ‘se matam’ para ser o banco da montadora. Então, o acesso ao crédito facilitou demais essas montadoras a venderem seus inventários”, avalia Barreto. Nesse cenário, o consumidor entra em uma encruzilhada entre comprar um carro novo por um valor pouco maior, com maiores chances de financiamento, e adquirir um usado com maiores riscos de despesas com o equipamento.

Por que o carro chinês é mais barato para o consumidor?

O modelo BYD Dolphin Mini é o 13º carro mais vendido de 2026 até o momento, com 7.713 emplacamentos com base em dados da Fenabrave. No site da marca, o veículo zero KM sai por R$ 119.990,00, com entrada de R$ 83.993,00. O Fiat Mobi 0KM, modelo de entrada que segue o tamanho do Dolphon Mini, pode ser encontrado por a partir de R$ 83.490.

Milad Neto lembra que a China “fez a lição de casa” no que se refere à produção de automóveis. Devido a uma indústria automobilística altamente verticalizada no país asiático, os custos da produção são reduzidos.

“Eles trabalharam em logística, no desenvolvimento de produto, aprenderam a fazer veículos, investiram dentro de veículos eletrificados e desenvolveram uma cadeia interna. Hoje eles têm 75% da produção de baterias automobilísticas do mundo. Então você tem uma série de elementos que convergem: um carro chinês, barato e atrativo, diferente de um carro de 15 anos atrás da China”, revela.

Os especialistas citam outro fator relevante para a redução do preço: incentivo fiscal no Brasil. O imposto de importação para veículos elétricos, híbridos e híbridos plug-in — boa parte da frota chinesa — contou com tributação zerada até 2023, enquanto as montadoras tradicionais seguiram contribuindo normalmente.

O cenário começou a mudar a partir de 2024, quando passaram a pagar 15% de imposto, aumentando gradualmente até chegar em 35% em julho deste ano. Ainda assim, a China aproveitou boa parte dessa benefício fiscal para o envio de peças que serão montadas no Brasil, mantendo o custo baixo por mais tempo.

Porém, Ana Barreto reforça que o incentivo fiscal não é o único fator que faz o carro chinês chegar mais barato aos consumidores brasileiros.

“O inventário que está vindo para o Brasil é, em tese, de qualidade e que caiu no gosto do brasileiro. Portanto, a competitividade com as montadoras tradicionais aumentou”, explica.

Guerra no Oriente Médio pode aumentar os preços dos carros chineses?

O mundo vive um cenário de crise energética e comercial em meio ao conflito no Oriente Médio entre Estados Unidos e Israel contra o Irã.

O bloqueio parcial do Estreito de Ormuz, principal canal de comércio do Golfo Pérsico para petróleo e outras exportações, pode prejudicar o envio de combustível e peças tanto para a produção de carros na China, quanto para as montadoras no Brasil.

Porém, Ana Barreto avalia que é muito cedo para projetar fortes efeitos da guerra no preço de combustíveis ou de carros no Brasil.

“Seria ter uma ‘bola de cristal’. O Brasil é um país extremamente volátil, estabilidade é tudo que nós não temos. Mundialmente, a situação é diferente. Pode impactar os preços porque quando há um conflito em uma região que fornece combustível, ele aumenta para o mundo todo, mas não tem como cravar isso agora”, explica Barreto.

Mesmo com uma menor oferta de combustível, o Brasil não terá fortes prejuízos em primeiro momento, visto que o país é exportador de petróleo — o que pode, inclusive, beneficiar esse setor.

Apesar do período de incertezas sobre o preço do combustível, uma entrada maior de frota eletrificada ou híbrida chinesa — e com preços competitivos — no país ainda não é um indicativo de que o consumidor brasileiro recorreria a esses modelos.

Milad Neto comenta que isso acontece porque boa parte da frota brasileira de automóveis é movida a combustível fóssil, especialmente o mercado de usados que, em geral, cabe melhor no bolso do brasileiro. Nesse caso da crise do petróleo, segundo o especialista, o consumidor se interessa mais pelo mercado de carros flex.

Vale a pena comprar um carro chinês zero ou um veículo usado?

Entre os usados e seminovos, o Volkswagen Gol é o carro que lidera as negociações, registrando 63.316 contratos em junho de 2025, o último dado da série da Fenabrave.

De acordo com a Tabela Fipe, o preço médio desse modelo de 2023 flex é de R$ 54.743,00 — quase R$ 100 mil a menos do que um carro zero da BYD, por exemplo.

Para o consumidor, decidir entre os carros “alegóricos” dos chineses, como comenta a diretora da Cox Automotive do Brasil — por trazerem alta tecnologia e design —, e os modelos usados vai depender de uma série de fatores.

Em geral, cabe ao consumidor “fazer a conta” de quanto ele efetivamente pode gastar na compra de um veículo e suas utilidades e praticidades no dia a dia. Ou seja, depende da condição socioeconômica do interessado.

Milad explica que o mercado de usados sempre foi bem maior do que o de novos — e uma entrada maior dos veículos chineses não deve mudar o cenário tão cedo.

“O carro está muito caro, então você parte para um seminovo. Isso é o que está fomentando, inclusive, os recordes anuais da indústria. A movimentação dos usados sempre é maior do que a dos novos e já tem isso chegando no consumidor final: vou comprar um carro [popular] de R$ 70 mil, R$ 80 mil de entrada ou eu vou comprar um carro usado de 2 ou 3 anos e mais equipado que vai me levar do ponto A ao ponto B da mesma forma? É isso que entra na conta do consumidor”, afirma.

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Contudo, apesar do preço competitivo que um carro chinês zero km apresenta, Ana Barreto relembra do valor das peças, manutenção e até mesmo impostos sobre esses modelos.

“Tem muita coisa que o brasileiro ignora na hora da compra de um carro, porque a compra é pura emoção. […] Às vezes, nós queremos aqui uma tecnologia embarcada ‘da NASA’, mas o nosso bolso não comporta a primeira manutenção”, alerta a especialista.

Antes da compra de um carro, ela afirma que é essencial pensar se o mercado já possui as peças de reposição com maior facilidade, se há necessidade de técnicos especializados para consertar o veículo e, especialmente, o imposto que o automóvel implicará ao dono.

Já para o cenário dos elétricos, os especialistas reiteram que o aumento desse consumo vai depender da experiência do consumidor, o que ainda não teve tempo suficiente para trazer respostas.

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