3 de abril de 2026

​Navios francês e japonês fazem primeiras travessias pelo Estreito de Ormuz 

Navio porta-contêineres francês e petroleiro de GNL ligado ao Japão conseguem cruzar o Estreito de Ormuz pela primeira vez desde o início da guerra, testando o controle iraniano sobre a rota e abrindo brecha em bloqueio que paralisou o fluxo global de petróleo e gás
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Um porta-contêineres francês e um navio-tanque de bandeira japonesa cruzaram o Estreito de Ormuz, naquilo que parecem ser as primeiras travessias desse tipo desde que a guerra no Irã praticamente fechou a rota marítima estratégica.

O porta-contêineres CMA CGM Kribi deixou o estreito na sexta-feira, segundo dados de rastreamento de navios compilados pela Bloomberg e duas pessoas com conhecimento do assunto. É o primeiro navio ligado à Europa Ocidental que se sabe ter conseguido atravessar a região desde o início da guerra, há mais de um mês. A japonesa Mitsui OSK Lines confirmou, também na sexta-feira, que um navio de gás natural liquefeito (GNL) do qual é coproprietária fez a travessia — outro caso inédito.

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O tráfego no Estreito de Ormuz praticamente parou desde que Estados Unidos e Israel atacaram o Irã, com apenas alguns poucos navios conseguindo passar. Em sua maioria, são embarcações associadas a países considerados amigos de Teerã, em um sistema que surgiu nas últimas semanas em que o Irã pré-aprova a passagem por uma rota que acompanha de perto sua costa.

Os navios francês e japonês sugerem uma mudança desse padrão, embora ainda não esteja claro se isso é resultado de negociações diplomáticas entre governos ou de acertos pontuais feitos por empresas e intermediários. França e Japão pediram um cessar-fogo no início desta semana, e o presidente Emmanuel Macron tem sido um dos mais vocais sobre a necessidade de reabrir o estreito — mas afirma que isso só poderá acontecer depois que os bombardeios cessarem.

Como parte do sistema iraniano que vem sendo montado, alguns navios passaram a pagar taxas de trânsito a Teerã, conforme a Bloomberg já havia reportado. Um porta-voz da Mitsui OSK não quis comentar se o navio de GNL Sohar pagou alguma taxa. A francesa CMA CGM SA, dona do porta-contêineres, também se recusou a comentar.

O Ministério das Finanças da França não respondeu a pedidos de comentário. O Ministério das Relações Exteriores francês preferiu não se manifestar.

A CMA CGM é a terceira maior empresa de navegação de contêineres do mundo e é controlada majoritariamente pela família bilionária Saadé. O fundador emigrou do Líbano, então em guerra, para a França, e criou a companhia em 1978, em Marselha.

Até agora, a maior parte das embarcações que cruzaram o estreito era de países com relações amistosas com o Irã, com alguns, como o Paquistão, negociando acordos bilaterais para garantir passagem segura. A maioria tem seguido uma rota encostada à costa iraniana, embora, nos últimos dias, tenha surgido um outro trajeto — pelo litoral de Omã. O navio de GNL utilizou esse caminho, assim como dois superpetroleiros.

Enquanto isso, o Irã tenta consolidar um controle de longo prazo sobre o estreito, avançando na criação de um sistema de pedágios em uma via marítima crucial para o abastecimento global de petróleo e gás. A iniciativa alarma países árabes do Golfo, que dependem da rota para suas exportações, e tende a encarecer custos para consumidores. Teerã já indicou que poderia administrar esse novo sistema em parceria com Omã, mas Mascate ainda não deixou clara sua posição.

Ilhas iranianas

Rastrear navios que entram e saem de Ormuz não é tarefa simples e tem sido dificultado pela intensa interferência de sinais na região, além de práticas de “spoofing” (falsificação de sinal).

Os dados mostram que o CMA CGM Kribi, que navega com bandeira de Malta, partiu de águas próximas a Dubai em direção ao Irã na tarde de quinta-feira (horário local), informando em seu sinal que o proprietário é francês. A embarcação manteve-se próxima à costa iraniana, passando por um canal entre as ilhas de Qeshm e Larak, transmitindo sua rota de forma aberta. Na sexta-feira, o navio já sinalizava posição ao largo de Mascate.

O CMA CGM Kribi tem capacidade para cerca de 5 mil TEUs (unidades equivalentes a contêineres de 20 pés), e as medições de calado indicam que ele está baixo na água, sinal de que transporta grande volume de carga. A companhia afirmou que 14 de seus navios ficaram retidos no Golfo Pérsico, sem conseguir cruzar o estreito.

O navio-tanque de GNL Sohar, que aparentemente não está carregado, encontra-se atualmente em águas próximas a Mascate, depois de alterar seu destino para o terminal exportador de GNL de Qalhat, em Omã, segundo os dados. A embarcação, que sinaliza ser um navio omani, passou o último mês circulando pelo Golfo Pérsico, mostram os registros.

A empresa gestora do navio — registrada como Oman Ship Management Co. no banco de dados Equasis — não respondeu imediatamente a ligações ou e-mails pedindo comentários. A dona do navio, Energy Spring LNG Carrier SA, compartilha os mesmos contatos da gestora. A Energy Spring é uma joint venture na qual a Mitsui OSK detém 50%, de acordo com documentos da companhia japonesa.

© 2026 Bloomberg L.P.

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