3 de abril de 2026

​Cemaden alerta para “desastre térmico” no Brasil com chegada do El Niño 

Fenômeno deve provocar ondas de calor, noites quentes e seca, além de pesar no bolso do brasileiro com alta na conta de energia e no preço dos alimentos
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Se o El Niño, fosse um menino como o seu nome sugere, teria o poder de estragar tudo que toca. É isso que esse fenômeno, de chegada garantida no segundo semestre, faz com o clima de boa parte do planeta. Não existe confirmação de que ele será superpoderoso, como se tem alardeado em redes sociais. Entre todos os desastres estimados o único garantido é o térmico e este será sentido em todo o Brasil, com grande intensidade no Sudeste e no Centro-Oeste.

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O calor, já nas alturas, virá com tudo no segundo semestre com o impulso do Niño. E 2026 poderá superar 2024 como o ano mais quente da História da Humanidade, adverte José Marengo, um dos climatologistas mais respeitos do mundo e um dos autores de uma nota técnica enviada à Casa Civil este mês pelo Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden).

Além disso, em termos gerais, o El Niño costuma provocar a diminuição das chuvas no Norte e o aumento no Sul. Na região central, nas regiões Sudeste e Centro-Oeste, as ondas de calor se tornam mais frequentes, normalmente acompanhadas de baixa umidade, diz a nota.

A seguir o que é garantido e o que por ora é apenas previsão, com razoável grau de incerteza.

Risco

Há 80% de chance de um El Niño se estabelecer no Oceano Pacífico no segundo semestre, diz Marengo. Se ele será moderado, forte ou muito forte é outra história. “Vai acontecer, será muito quente e vamos sentir mais a partir de setembro. Mais que isso, é especulação”, afirma o climatologista.

Impacto global

Há um El Niño quando o Pacífico equatorial permanece a pelo menos 0,5°C acima da temperatura média por ao menos três meses. Parece pouco, mas as dimensões do fenômeno são colossais. O El Niño é como uma piscina de água quente de tamanho equivalente ao da Amazônia Legal brasileira. O combustível do El Niño é a radiação solar. O Pacífico equatorial recebe mais radiação solar do que qualquer outro lugar da Terra e essa energia é estocada em forma de calor. A atmosfera responde à toda essa água quente e os ventos enfraquecem e concentram umidade no Oeste da América do Sul. Isso deflagra uma cascata de desequilíbrios, com extremos de calor, seca e chuva. O fenômeno é regional, mas toma dimensão global porque o El Niño funciona como uma usina de energia, propagada por correntes oceânicas e ventos mundo afora.

Quando

Os primeiros sinais são na época do Natal, daí a alusão ao “menino”, no caso, Jesus. Mas o fenômeno se desenvolve no período de abril a junho. E mostra as garras nos meses seguintes, sobretudo de outubro a fevereiro do ano seguinte.

Potência

Neste momento, José Marengo diz ser impossível cravar a intensidade do fenômeno, pois os modelos de previsão perdem a precisão em períodos acima de dois meses. Mas se for de forte a muito forte pode superar 2024 e levar o Brasil e o mundo a um patamar inédito de calor intenso e prolongado. Vale notar que o El Niño de 2024 não chegou a ser classificado como muito forte, mas teve efeitos devastadores _ além do calor, a tragédia do Rio Grande do Sul e a seca recorde da Amazônia, por exemplo _ porque a Terra está mais quente do que nunca nos registros. “Para ser classificada como muito forte a anomalia (na água do Pacífico) teria que superar 2,0°C”, diz a nota do Cemaden.

Maçarico turbinado

O calor será intenso e garantido porque o calor do El Niño se soma ao do planeta mais quente e desmatado. Os anos de 2015 a 2025 foram o período mais quente já registrado, segundo a Organização Meteorológica Mundial. Pela primeira vez, o documento inclui uma medida chamada desequilíbrio energético da Terra — a diferença entre a energia que chega do Sol e a que é irradiada de volta para o espaço. Ela está em seu nível mais alto desde o início das observações, em 1960. O desmatamento também aumenta a temperatura ao reduzir a cobertura vegetal que ajuda a proteger o solo do efeito direto dos raios solares e a evitar a perda de umidade.

Desastre térmico

O calor é um assassino invisível e silencioso, frisa Marengo. Quando extremo e prolongado, ele é um desastre. Agrava doenças, seus efeitos sobre a saúde são extensos. Reduz a produtividade, mata plantações, causa incêndios, mata animais. Pior do que os picos de temperaturas máximas, enfatiza, é a longa duração dos períodos quentes.

Ondas de calor

Nos últimos cinco anos aumentou a área afetada e a frequência de ondas de calor, diz Marengo. O ano de 2024 teve dez ondas de calor; 2023, oito e 2025 mesmo sem El Niño marcou sete. É o período com maior número de ondas de calor da História do Brasil. Sudeste e Centro-Oeste têm sido muito afetados. O cientista destaca que as ondas estão cada vez mais comuns e preocupam, sobretudo, porque estão mais longas. Algumas superam dez dias. Porém, o efeito mais pernicioso não é sequer o extremo pontual de temperatura, mas semanas a fio acima da zona de conforto térmico do ser humano, que oscila na faixa dos 23°C. É isso que sobrecarrega o corpo e causa problemas de saúde.

Noites quentes

Um dos principais motivos dos efeitos nocivos é o aumento das temperaturas mínimas. O termômetro passa o dia nas alturas e o corpo não tem descanso à noite porque ele não baixa significativamente, como seria o esperado. As mínimas, segundo Marengo, têm subido mais do que as máximas. Se a pessoa não tem ar condicionado, não descansará, alerta o climatologista.

Efeito direto

No bolso do brasileiro. O ar condicionado, para quem pode ter um, é a única forma de aliviar sensação térmica superior a 35°C, como mostram estudos publicados na revista Lancet. Ventilador vira air-fryer nessas condições. Porém, o ar condicionado faz a conta de energia disparar. Ligar um único aparelho por cerca de 10 horas por dia (parte da noite e das horas mais quentes do dia, normalmente no meio da tarde) pode triplicar a conta, isso com a bandeira tarifária verde. O custo dos alimentos também sobe porque o calor constante somado a extremos de seca e chuva diminui a produtividade e leva à escassez de produtos, sobretudo, hortifrutigranjeiros.

Inverno

José Marengo diz que os invernos estão ficando mais quentes. Mas isso não impede a ocorrência de episódios de frio intenso. O El Niño é desequilíbrio e ele também pode se manifestar com extremos pontuais de frio. Porém, bem menos frequentes do que os de calor.

Sudeste

O calor é a marca do El Niño na região. O Sudeste é uma região que os climatologistas chamam de transição e sofre outras influências, assim não existe aumento especial nos registros de extremos de chuva associados ao fenômeno.

Sul

A nota do Cemaden alerta que, se as chuvas ficarem acima da média na Região Sul, como costuma ocorrer em anos de El Niño, aumenta o risco de deslizamentos, sobretudo na faixa leste — como Grande Curitiba e litoral do Paraná, Norte Catarinense, Vale do Itajaí, Grande Florianópolis e parte sul de Santa Catarina, além da Serra Gaúcha, região metropolitana de Porto Alegre e áreas de Santa Cruz do Sul e Santa Maria no Rio Grande do Sul. Podem ocorrer desde quedas de barreiras em rodovias e deslizamentos em áreas urbanas. Do ponto de vista dos rios, volumes de chuva superiores à média podem provocar cheias importantes em bacias como Uruguai, Taquari-Antas, Caí, Itajaí-Açu e Iguaçu. Os eventos de El Niño tendem a favorecer não só chuvas acumuladas acima do normal, como episódios pontuais de chuva intensa, capazes de gerar enxurradas e alagamentos em áreas densamente povoadas, com destaque para as regiões metropolitanas de Porto Alegre, Florianópolis e Curitiba e todo o litoral catarinense.

Amazônia

Impossível dizer neste momento se o cenário será como o de 23/24, cuja seca brutal ficou marcada na imagem da maior mortalidade de botos-cor-de-rosa da História. Mas, mesmo que chova abaixo da média, o impacto sobre o ciclo de cheias da Amazônia tende a ser limitado porque, em setembro — quando o El Niño já deve estar configurado — o pico de cheia principal já terá passado, iniciando um novo ciclo previsto apenas para o fim de 2026. Assim, mesmo que a seca se prolongue até o final do ano, o efeito esperado é, sobretudo, um atraso no início do novo ciclo hidrológico, afetando principalmente as áreas de nascente dos rios Solimões e Negro, e não toda a bacia amazônica.

Nordeste

Se houver atraso na chuva, o impacto será maior no sertão, onde muitos municípios dependem de barragens intermitentes que levam mais tempo para encher quando o período chuvoso atrasa ou é mais fraco. Mas o Cemaden lembra que o El Niño não é o único fator por trás de extremos climáticos: o Oceano Atlântico Tropical também interfere no regime de chuvas da região e processos não climáticos, como mudanças no uso da terra e desmatamento, agravam secas e enchentes ao alterar a recarga dos reservatórios e o comportamento das bacias hidrográficas.

Centro-Oeste

O Cemaden diz que, se o El Niño se estabelecer na segunda metade de 2026, ele pode piorar a seca já em curso no centro-norte do Brasil, sobretudo se vier acompanhado por temperaturas altas, baixa umidade do ar e atraso no início da estação chuvosa 2026–2027. Esse combo de condições criaria um cenário particularmente favorável ao aumento do risco de incêndios florestais e em áreas de vegetação, principalmente a partir de agosto, quando a estação seca se intensifica nessa faixa do país. O Pantanal está entre as áreas de preocupação, diz Marengo.

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