9 de abril de 2026

​Como Xi ajudou Trump a concretizar cessar-fogo com o Irã 

Pequim teria pressionado Teerã a aceitar a trégua nas horas finais antes do prazo de Trump; Casa Branca confirmou que o papel de Pequim ocorreu nos “mais altos níveis” dos dois governos
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Quando Donald Trump se aproximava do prazo que ele mesmo havia estabelecido para destruir a “civilização inteira” do Irã, ficou evidente que um país tinha influência suficiente para convencer Teerã a recuar: o maior rival da América, a China.

Nas horas seguintes ao anúncio do cessar-fogo publicamente mediado pelo Paquistão, autoridades iranianas creditaram uma pressão de última hora de Pequim como decisiva para a aceitação do acordo, afirmação logo validada pelo próprio Trump. O primeiro-ministro paquistanês, Shehbaz Sharif, agradeceu à China pelo apoio, enquanto a Casa Branca afirmou que o papel de Pequim na trégua ocorreu nos “mais altos níveis” dos governos americano e chinês.

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A China não confirmou nem negou os relatos sobre seu papel central na negociação, e o presidente Xi Jinping ainda não comentou publicamente o conflito que bloqueou um quinto do fornecimento global de petróleo. Mas a decisão de intervir reflete a capacidade de Pequim de transitar entre laços sólidos com o Irã, as nações do Golfo e Trump, e marca uma ruptura com a preferência histórica chinesa de se manter à margem.

A virada foi motivada por razões econômicas. O conflito ameaçava o fornecimento de energia da China, disse Zongyuan Zoe Liu, pesquisadora sênior de estudos sobre a China no Council on Foreign Relations. Dados previstos para a semana que vem devem mostrar desaceleração na produção industrial e nas exportações no mês seguinte ao início da guerra.

“A China agiu porque a guerra no Irã ameaçava diretamente as condições econômicas das quais depende para crescimento e estabilidade política interna”, disse Liu. “O fato de Trump creditar publicamente a China é exatamente o tipo de capital político que Pequim queria antes de uma cúpula remarcada.”

Uma pausa nos combates facilitaria a visita de Trump a Pequim no próximo mês, deixando o líder americano em débito com seu contraparte chinês. Trump já chegará à capital chinesa com suas tarifas punitivas derrubadas pela Suprema Corte e com a presença militar americana na Ásia reduzida pelos recursos desviados para o Oriente Médio.

Para Pequim, porém, entrar em negociações sobre uma guerra sem solução fácil traz riscos, mesmo que a atuação se limite a pressão nos bastidores sobre um aliado dependente do apoio chinês. A China é o maior parceiro comercial do Irã e o principal comprador de seu petróleo.

O risco ficou evidenciado quando autoridades paquistanesas relataram ao Guardian que, enquanto Islamabade atuou como mediador, a China funcionou como “fiadora”, prometendo a autoridades iranianas que não seriam assassinadas durante futuras negociações. Não ficou claro como Pequim poderia oferecer tal garantia, nem qual seria a motivação, dado o impacto caso algo saísse errado.

Questionada sobre o relato, a porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Mao Ning, desviou da pergunta em entrevista coletiva regular na quinta-feira, dizendo que a China “sempre defende o fim precoce das hostilidades e a resolução das diferenças por meios diplomáticos e políticos para restaurar a estabilidade e a paz no Oriente Médio.”

Por anos, Xi ignorou apelos de líderes ocidentais para usar sua amizade com Vladimir Putin para ajudar a encerrar a guerra na Ucrânia, fornecendo a Moscou apoio diplomático e econômico enquanto consolidava um parceiro-chave na oposição à ordem mundial liderada pelos EUA.

Embora a China tenha reforçado suas credenciais ao presidir uma aproximação entre Arábia Saudita e Irã em 2023, o tamanho real do papel de Pequim naquele acordo permanece incerto.

Outros esforços de mediação ficaram restritos a conflitos nas fronteiras da China, como em Mianmar, onde autoridades desempenharam papel relevante em negociações de cessar-fogo com o regime, ou, mais recentemente, ao sediar sete dias de conversas de paz entre Afeganistão e Paquistão. Esse movimento pode ajudar a reduzir as tensões em Islamabade antes da primeira rodada de conversas planejadas entre Irã e EUA na capital paquistanesa no sábado, com o vice-presidente JD Vance liderando a delegação americana.

Trazer o Irã à mesa de negociações, porém, é apenas o primeiro passo para encerrar as hostilidades. Teerã busca garantias de segurança contra novos ataques e pediu publicamente a Pequim que desempenhe esse papel, um pedido que analistas consideram improvável de ser aceito.

“É difícil imaginar a China oferecendo garantias explícitas de segurança ao Irã durante ou após um cessar-fogo”, disse Tong Zhao, pesquisador sênior da Carnegie Endowment for International Peace. “Tais compromissos iriam contra a aversão histórica de Pequim ao risco militar, especialmente quando um confronto com os Estados Unidos é concebível.”

Pequim poderia oferecer apoio econômico para estabilizar a economia iraniana ou ajuda na reconstrução de parte de sua capacidade de defesa, disse Zhao, acrescentando que relatos de que a China continua exportando perclorato de sódio para o Irã, um precursor para combustível de mísseis, apontam nessa direção.

Uma cúpula China-países árabes prevista para este ano dará a autoridades do Oriente Médio outra oportunidade de pressionar Pequim a assumir um papel maior, disse Wang Yiwei, professor de relações internacionais da Universidade Renmin e ex-diplomata chinês.

“A China definitivamente não está satisfeita com o bloqueio do Estreito de Ormuz”, acrescentou. “Mas como garantir o futuro do Estreito de Ormuz, ou do Mar Vermelho, como bem público para o mundo inteiro, é uma grande questão.“

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