10 de abril de 2026

​15º recorde no ano: o que fez Ibovespa superar os 195 mil pontos – e o que esperar 

Alívio geopolítico no Oriente Médio reforça fluxo estrangeiro, com dólar em queda e blue chips liderando alta que leva o índice a novas máximas históricas
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A expectativa de que Israel venha a interromper também a ofensiva no Líbano — movimento que reforçaria o cessar‑fogo mediado pelos Estados Unidos com o Irã — deu fôlego aos ativos globais ao longo da última quinta-feira (8) e levou o Ibovespa a renovar recordes pelo segundo pregão consecutivo. Nesta quinta‑feira, o principal índice da B3 tocou, pela primeira vez, a casa dos 195 mil pontos, tanto no intradia quanto no fechamento.

Na véspera, após sair de mínima logo na abertura, aos 192.206 pontos, o índice acelerou os ganhos ao longo do pregão, alcançou máxima de 195.514 pontos e encerrou em alta de 1,52%, aos 195.129 pontos, nova máxima histórica. Foi a oitava sessão consecutiva de valorização e o 15º recorde de fechamento no ano.

Com isso, o Ibovespa acumula alta de 4,09% em abril, enquanto o avanço no ano chega a 21,10%. Na semana, o ganho é de 3,76%. O giro financeiro permaneceu elevado, somando R$ 37,2 bilhões, em linha com a sessão anterior.

Nos Estados Unidos, os principais índices também fecharam em alta, embora com desempenho mais moderado do que o observado na bolsa brasileira: Dow Jones (+0,58%), S&P 500 (+0,62%) e Nasdaq (+0,83%). Os rendimentos dos Treasuries recuaram, assim como a curva de juros futuros no Brasil, em um ambiente de menor aversão a risco.

De acordo com o sócio e advisor da Blue3 Investimentos Willian Queiroz, o anúncio sobre o cessar-fogo abriu espaço para uma recuperação nos mercados, bem como um alívio de volatilidade, mesmo que ainda existam alguns riscos, com recursos militares de prontidão no Oriente Médio. Mas, acrescentou, a perspectiva de um fim para a guerra “trouxe a calmaria que o Ibovespa precisava para continuar batendo máximas históricas”.

Bolsa brasileira segue barata em dólar e atrai fluxo externo

Com a valorização recente e a queda do câmbio, o Ibovespa atingiu 38.537 pontos em dólar, reforçando a leitura de que, mesmo nos níveis atuais, as ações brasileiras ainda apresentam valuation atrativo para o investidor estrangeiro. No fechamento de março, o índice havia encerrado a 36.199 pontos em moeda forte, enquanto no fim de janeiro estava em 34.561 pontos.

Segundo o estrategista Bruno Takeo, da Potenza, a percepção externa segue construtiva para o Brasil, sobretudo em comparação com mercados pares no exterior. Um indicativo disso foi o desempenho do EWZ, principal ETF de ações brasileiras negociado em Nova York, que subia mais de 2% no período da tarde, superando o avanço do Ibovespa.

“O investidor estrangeiro continua vendo o Brasil como oportunidade. Há uma diferença relevante de preço em relação a empresas comparáveis no exterior, o que sustenta o apetite”, observa Takeo. A valorização dos ADRs (recibo de ações negociado em Nova York) da Petrobras (PETR3;PETR4) também superou o desempenho das ações negociadas na B3, sinalizando fluxo positivo vindo de fora.

Casas como Morgan Stanley quanto o JPMorgan destacam o país como uma das apostas relevantes dentro da América Latina e do universo de mercados emergentes, apoiado em fundamentos corporativos, exposição a commodities energéticas e valuation ainda considerado atrativo.

Cessar‑fogo é visto como frágil, mas melhora o ambiente de risco

No campo internacional, o mercado reagiu às sinalizações de avanço diplomático no Oriente Médio. Além da pressão para uma trégua no Líbano, o Irã teria se comprometido a permitir a passagem de 15 navios por dia pelo Estreito de Ormuz, reduzindo temores sobre disrupções no fluxo global de petróleo. Em paralelo, o primeiro‑ministro israelense afirmou que negociações diretas com o Líbano devem começar em breve, embora relatos indiquem que um cessar‑fogo definitivo ainda seja incerto.

Para Matheus Spiess, da Empiricus Research, o alívio atual não elimina os riscos, mas melhora significativamente o cenário de curtíssimo prazo. “O cessar‑fogo é frágil, mas a situação hoje é melhor. Ainda estamos longe de uma solução definitiva para um conflito que pode se arrastar por bastante tempo”, afirma.

Fluxo estrangeiro segue como principal motor do índice

A leitura de que o fluxo externo continua sendo o grande sustentáculo do rali da bolsa também é compartilhada por Pedro Moreira, sócio da One Investimentos. Segundo ele, o patamar de 195 mil pontos reflete uma mudança estrutural na alocação global observada desde o segundo semestre do ano passado.

“Houve uma redução da concentração excessiva nos Estados Unidos, que vinham absorvendo grande parte da liquidez global via tecnologia e inteligência artificial. Nesse novo contexto, mercados emergentes voltaram ao radar, e o Brasil tem sido um dos principais beneficiados”, afirma.

Moreira destaca ainda que a alta do Ibovespa não está concentrada em poucos papéis. “Mais de 80% das ações do índice estão acima da média móvel de 200 dias. É uma alta relativamente espalhada, o que dá mais sustentação ao movimento”, diz.

Brasil combina juros elevados, carry trade e melhora de percepção

Na avaliação de Felipe Cima, da Manchester Investimentos, o mercado já começa a assimilar a perspectiva de uma trégua no Oriente Médio, mesmo reconhecendo sua fragilidade. Ao mesmo tempo, o Brasil se beneficia de uma combinação favorável: juros reais elevados, atratividade do carry trade, fluxo estrangeiro consistente e expectativa de queda de juros à frente.

“O câmbio segue próximo das mínimas, o que sustenta entrada de capital. Mesmo com resultados corporativos ainda sem grande brilho, cerca de metade das empresas do Ibovespa tem apresentado bom desempenho”, observa.

Cima acrescenta que a percepção de risco político internacional, somada às incertezas fiscais nos Estados Unidos, também contribui para o redirecionamento de recursos para mercados como o brasileiro.

(com Reuters e Estadão Conteúdo)

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