Especialistas explicam por que o momento atual pode ser raro — e como agir
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O real vive seu melhor momento em muito tempo. Nesta sexta-feira (10), o dólar é negociado na casa dos R$ 5,01 — patamar que não era visto há mais de um ano e que representa uma apreciação expressiva em relação aos R$ 5,29 por dólar registrados em 6 de março, o pico dentro do período da guerra entre os Estados Unidos e Irã. A valorização da moeda brasileira chama atenção de investidores, que se perguntam se é hora de comprar dólar. Especialistas ouvidos pelo InfoMoney mostram visões distintas, mas convergem em alguns pontos fundamentais.
Para entender o momento atual, é preciso olhar para uma série de fatores que se acumularam nos últimos meses. “Desde que Donald Trump assumiu, ele colocou em prática uma série de tarifas contra outros paíes, além de iniciar conflitos; os investidores começaram a ver uma deterioração marginal do excepcionalismo norte-americano e começaram a sair dos Estados Unidos e a buscar em outros mercados, o que fez com que o dólar se enfraquecesse e outras moedas passaram a se fortalecer”, explica Gustavo Sung, economista-chefe da Suno Research.
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O Brasil surgiu como um dos destinos preferidos desse capital migrante. Entre os motivos estão os juros elevados, acões baratas na Bolsa e economia com “bons números” – crescimento forte, desemprego baixo e inflação relativamente controlada –, enumera Sung.
Em março, no meio do conflito no Oriente Médio, investidores estrangeiros aportaram R$ 11,7 bilhões na Bolsa brasileira. Tadeu Arantes, head de alocação da Ghia Multi Family Office, destaca essa estatística e aponta também o papel do petróleo: “nossa moeda também se beneficia de uma melhora dos termos de troca por causa da alta do petróleo. O Brasil é superavitário na balança comercial de petróleo, exportamos mais do que importamos, ou seja, mais uma entrada de dinheiro estrangeiro em grande escala.”
O conflito no Oriente Médio, que inicialmente gerou pânico nos mercados, acabou sendo paradoxalmente benéfico para o real. Sung explica a virada: “num primeiro momento nós vimos a incerteza geopolítica aumentar. Isso fez o dólar se fortalecer – todo mundo foi para os Estados Unidos buscando moeda segura. Mas, num segundo momento, com o preço do petróleo subindo de uma forma bastante relevante, acima dos US$ 100, a nossa balança comercial foi favorecida, a moeda brasileira passou a valorizar.”
Angelo Belitardo, gestor da Hike Capital, descreve o movimento como contraintuitivo. “Em vez de fuga para o dólar, o mercado passou a desmontar posições defensivas à medida que aumentaram sinais de trégua e redução de risco geopolítico, o que derrubou o dólar globalmente e favoreceu moedas emergentes como o real. Ao mesmo tempo, o Brasil ficou relativamente ‘fora do epicentro’ do conflito, o que aumentou a atratividade relativa do país para capital estrangeiro.”
Marcos Praça, diretor de análise da Zero Markets Brasil, também destaca um elemento diferencial do Brasil no contexto do tarifaço americano. “Somos um dos únicos países que não só não se rendeu ao tarifaço americano, como demonstrou enorme resiliência, apresentando números de exportação ainda maiores, mesmo com uma das tarifas americanas mais altas do mundo.”
É hora de comprar dólar?
Com o dólar perto de R$ 5, a pergunta inevitável é: comprar agora ou esperar cair mais? Os especialistas alertam contra a tentação de “acertar o momento” e recomendam uma abordagem gradual.
Sung sugere uma estratégia de preço médio: vá comprando aos poucos, que, na média, você terá um preço mais favorável. Muitas vezes as pessoas vão viajar e deixam para a última hora, achando que vai cair mais, e não cai. Acho que agora é uma boa hora de aproveitar para realizar uma pequena troca.”
“Para uma viagem, o recomendado é sempre fracionar a compra em pelo menos três períodos até a data da viagem, assim temos um preço médio e não fica aquela sensação ruim de ter comprado mal. Para investimento, o recomendado é focar no longo prazo e tratar o dólar como uma proteção, mantendo sempre uma quantidade razoável do patrimônio dolarizado independente do cenário”, diz Marcos Preça.
Felipe Sant’Anna, analista da Axia Investing, vai além e faz uma defesa histórica da dolarização, pensando na carteira de investimentos. “Desde 1994, quando o Plano Real foi instituído neste País, o dólar americano está em tendência de alta. As quedas que nós tivemos nunca retomaram patamares anteriores. Nunca voltou de R$ 5 para R$ 4, até R$ 2” Para ele, a valorização recente do real cria uma janela. “Sempre que o dólar cai, eu vejo uma oportunidade.”
Para quem já tem posição em dólar, o conselho é manter a estratégia original. Belitardo é enfático: “se a posição foi montada com visão estratégica, o correto é segurar. Movimentos de curto prazo não mudam o papel do dólar como proteção. Reduzir posição agora significa assumir que você consegue prever o câmbio, o que raramente funciona. Aumentar posição faz sentido apenas se a alocação em dólar ainda estiver abaixo do planejado.”
Marcos Praça adota raciocínio semelhante e diz que a posição em dólar deve ser “manejada e rebalanceada. Ele complementa explicando que “se a queda atual fez a fatia dolarizada do patrimônio cair, vale aumentar a posição gradualmente. Porém sempre mirando em um objetivo base pré-estabelecido em relação a uma parcela da carteira de investimentos.”
O dólar pode cair abaixo de R$ 5?
A barreira psicológica dos R$ 5 está em debate. Rafael Minotto, analista da Ciano Investimentos, projeta que a queda pode ir além: “o dólar vem formando uma tendência baixista e pode, sim, chegar na casa dos R$ 4,80 em alguns momentos do ano.”
Belitardo considera isto possível, mas não o cenário-base. Ele explica que se a divisa cair abaixo de R$ 5, a pressão inflacionária no Brasil é reduzida, principalmente em combustíveis, alimentos e bens importados. Mas, por outro lado, a queda do dólar também “reduz a competitividade de exportadoras e pode pressionar lucros de empresas dolarizadas.”
Um cenário com dólar abaixo de R$ 5 por vários meses consecutivos é “difícil”, segundo Gustavo Sung, que vê “questões domésticas que ainda precisam ser arrumadas”. A projeção da Suno Research é de que a moeda americana conntinue “comportada”, mas não abaixo de R$ 5 por muito tempo.
Já Arantes alerta para a volatilidade: “esse nível (atual) não deve ser tratado como um novo ‘piso estrutural’, pois o câmbio responde rapidamente a mudanças no ambiente externo.”
Por onde começar a investir em dólar?
Para quem nunca teve dólar na carteira e quer aproveitar o momento, os especialistas indicam caminhos e apontam os erros mais comuns.
Arantes orienta: “é importante entender que investir em dólar não significa apenas comprar a moeda, mas sim acessar ativos internacionais — como fundos, ETFs ou ações globais. Antes de investir, é importante definir objetivos, entender o nível de risco e avaliar o horizonte de investimento.”
Praça indica que “o primeiro passo é abrir conta em uma corretora que disponibilize ativos no exterior como ETFs, BDRs ou mesmo as ações de forma direta.” E Belitardo simplifica a entrada: “começar com uma parcela pequena via fundos internacionais, ETFs ou conta no exterior já resolve.”
Sobre o erro mais comum, há consenso entre todos os especialistas: a especulação de curto prazo. Arantes alerta: “o erro mais comum é entrar motivado apenas pelo câmbio, tentando acertar o melhor momento. Esse tipo de abordagem tende a gerar decisões precipitadas.” Praça concorda. Para ele, o erro mais comum é “usar o dólar como especulação, principalmente por viés político, ao invés de usá-lo como uma proteção onde mantemos um relacionamento por tempo indeterminado na carteira.”
Belitardo resume a filosofia que atravessa todas as recomendações. “O primeiro passo é entender que dólar não é aposta, é diversificação. O objetivo deveria ser proteção de patrimônio e acesso a ativos globais.”
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