Avaliações de especialistas indicam rotação na bolsa, maior apetite ao risco e ganhos para setores ligados ao ciclo doméstico
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Com o dólar fechando a última segunda-feira (13) abaixo de R$ 5 pela primeira vez em mais de dois anos com Donald Trump, presidente dos EUA, retomando as esperanças dos investidores em um acordo de paz com o Irã, o mercado financeiro brasileiro entra em uma nova fase de leitura de risco. Especialistas reforçam que o movimento é puxado muito mais por fatores externos do que domésticos, mas abre espaço para uma mudança importante na alocação de investimentos, favorecendo ações ligadas ao crescimento interno da economia.
Segundo Antonio Patrus, diretor da Bossa Invest, a fraqueza recente da moeda americana é global. “O dólar vem perdendo força no mundo, o que acaba beneficiando moedas emergentes como o real. Ao mesmo tempo, há uma reprecificação de risco, com uma leitura um pouco mais positiva para o Brasil, principalmente quando se olha juros e fluxo de capital”, afirma.
Esse cenário tem efeitos diretos sobre a economia. Um câmbio mais baixo contribui para aliviar a inflação, especialmente em itens dolarizados, o que começa a se refletir na curva de juros. “Ainda existe pressão inflacionária, mas o mercado começa a enxergar mais previsibilidade do que há algumas semanas”, diz Patrus.
Para o head da Tesouraria do BS2, Ricardo Chiumento, apesar das incertezas que ainda pairam sobre as negociações entre EUA e Irã os preços dos ativos mundo afora parecem incorporar a percepção de que “o pior já ficou para trás” no conflito no Oriente Médio.
“Trump sentiu a pressão e teve que recuar após falar em destruir uma civilização com novos ataques ao Irã. Isso trouxe uma melhora do cenário externo que beneficiou o real. Com a entrevista do Trump hoje sobre negociações, o dólar furou os R$ 5,00 e, se não houver nenhuma notícia desfavorável, deve ir para a casa de R$ 4,97 na terça”, disse Chiumento na última segunda-feira.
Em relatório, o Goldman Sachs afirma que, passando o momento inicial de alívio na percepção de risco, os termos de troca vão passar a ter um papel “cada vez mais relevante” no apetite por divisas emergentes. A perspectiva de estrategistas de commodities do banco é a de que as cotações do petróleo não voltem aos níveis vistos antes da eclosão da guerra.
“Em um cenário em que haja apetite ao risco e manutenção dos preços de energia em níveis elevados, o real e o peso mexicano devem ter um desempenho relativo superior”, afirma o banco.
Rotação na Bolsa favorece setores domésticos
Na bolsa, o dólar mais fraco ajuda a explicar a rotação observada nos últimos pregões, apontam analistas. Setores mais sensíveis ao ciclo econômico brasileiro tendem a ser os primeiros beneficiados. “Varejo, consumo e logística ganham destaque porque dependem de juros mais baixos e de uma renda mais estável”, afirma o executivo da Bossa Invest.
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As blue chips continuam relevantes, mas deixam de ser o único porto seguro do investidor. Empresas como Vale (VALE3) e Petrobras (PETR4) passam a dividir espaço com companhias mais ligadas à economia doméstica, em um ambiente de maior apetite ao risco.
A mesma leitura é compartilhada por Fábio Murad, sócio e fundador da Ipê Avaliações. Para ele, o dólar abaixo de R$ 5 muda a lógica de proteção das carteiras. “Quando a moeda americana perde força, parte da demanda por hedge diminui e o investidor volta a olhar para ativos de risco, principalmente a Bolsa”, afirma.
Murad destaca que esse movimento favorece uma recomposição de portfólio, com maior peso para ações domésticas. Por outro lado, empresas exportadoras ou fortemente dolarizadas podem perder tração relativa no curto prazo, justamente por conta da valorização do real.
Varejo e supermercados no radar
Para André Matos, CEO da MA7 Negócios, a queda do dólar tende a se sustentar se o movimento global de desvalorização da moeda americana continuar. “A valorização do real é favorecida pela desvalorização da cesta de moedas frente ao dólar, o que cria um ambiente mais construtivo”, avalia.
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Nesse contexto, Matos destaca empresas do setor varejista, além das grandes companhias da bolsa. Também entram no radar ações de logística e de supermercados. Entre os exemplos, estão empresas como Assaí (ASAI3), que se beneficiam de um cenário de juros mais baixos e melhora gradual da renda.
O executivo pondera, entretanto, que o mercado ainda monitora a trajetória da inflação. Apesar de uma leve piora recente nas projeções do IPCA, o consenso começa a apontar para um ambiente mais favorável do que o observado anteriormente.
Momento ainda é de transição
Apesar do tom mais construtivo, os especialistas alertam que o cenário segue em transição. A consolidação de um dólar mais baixo depende da continuidade da melhora na inflação, da curva de juros e do ambiente externo.
“Se o dólar se mantiver nesse patamar e a curva seguir melhorando, podemos entrar em um ciclo mais favorável para investimento e inovação”, diz Antonio Patrus. Caso contrário, o movimento pode permanecer tático e de curto prazo.
(com Estadão Conteúdo)
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