25 de fevereiro de 2026

​A Era do ‘G0’ e a nova ordem global: Eurasia alerta para mudanças em investimentos 

“Não é G2, não é G7. Países olham mais para o seu próprio umbigo”, diz Christopher Garman
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A atual ordem mundial está em transição, abandonando o regime unipolar dominado pelos Estados Unidos para ingressar no que especialistas denominam “G0”. Essa nova era é caracterizada pela ausência de governança global e pela primazia dos interesses domésticos sobre a cooperação internacional.

Christopher Garman, diretor para as Américas da Eurasia Group, define esse cenário: “Não é G2, não é G7. Países olham mais para o seu próprio umbigo”, ressaltando o enfraquecimento de alianças tradicionais e a redistribuição desigual de riscos entre continentes e setores.

Segundo Garman, essa mudança altera profundamente a forma como governos, empresas e investidores se posicionam no cenário internacional. A erosão das estruturas multilaterais tradicionais não apenas aumenta as incertezas, mas também redistribui os riscos de maneira desigual entre diferentes regiões e setores da economia global.

O executivo participou do Outliers InfoMoney, e conversou com Clara Sodré e Fabiano Cintra. 

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A Disputa EUA-China e a Interdependência Ambígua

A competição entre Estados Unidos e China é apontada por Garman como o motor central dessa nova ordem internacional. “A disputa é tecnológica, militar e financeira. Mas as duas economias estão tão interligadas que se atacam e se seguram ao mesmo tempo”, explica o especialista, destacando a complexidade da relação.

Essa interdependência gera um ambiente ambíguo, onde ambos os países adotam medidas defensivas e restritivas, mas dependem profundamente dos fluxos comerciais e tecnológicos bilaterais.

A busca por autonomia nas cadeias produtivas torna-se uma prioridade estratégica, elevando os semicondutores a um ativo geopolítico de primeira grandeza.

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Taiwan e o Peso Geopolítico dos Chips

Garman enfatiza a crescente importância dos chips produzidos em Taiwan, peças cruciais para as cadeias globais de tecnologia avançada. A dependência mundial da ilha amplifica o risco geopolítico da região, tornando-a um ponto focal de tensões.

Embora a probabilidade de uma invasão chinesa em 2026 seja estimada em apenas 5%, o especialista alerta que essa chance deve aumentar nos próximos cinco anos. Ele observa que esse risco já está precificado pelo mercado, mas tende a ganhar ainda mais relevância à medida que a rivalidade entre as grandes potências se intensifica.

Geopolítica: Fator Central nos Negócios

A geopolítica deixou de ser um fator periférico para influenciar o mercado financeiro com a mesma força de indicadores econômicos como inflação e juros, segundo Garman.

“Estamos entrando em um ciclo em que a estabilidade geopolítica está roendo. É um ponto de inflexão que realmente começa a impactar os negócios”

— Christopher Garman, diretor para as Américas da Eurasia Group

CEOs de multinacionais já listam fatores geopolíticos entre suas três maiores preocupações, indicando uma mudança estrutural onde o risco político se tornou um componente central nas decisões estratégicas das empresas.

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Mudanças Regionais e Erosão Institucional

Além da Ásia, Garman destaca o papel disruptivo da Rússia e as transformações na Europa e América do Norte. A perda de confiança pública nos sistemas político e judicial desses países alimenta lideranças focadas em agendas domésticas, reduzindo a cooperação internacional.

Esse ambiente fragmentado reforça o movimento de cada país em direção aos seus próprios interesses, intensificando o que Garman denomina “egoísmo estratégico”.

Estados Unidos: Credibilidade em Questão

Ao analisar os Estados Unidos, Garman reconhece o vigor econômico do país, mas aponta um desgaste em sua credibilidade como parceiro estratégico. “Existe uma quebra da confiança dramática na relação transatlântica. O ruído político tende a enfraquecer o dólar ao longo do ano”, avalia.

Ele também prevê que, diante de turbulências domésticas, um eventual governo Trump tenderá a adotar uma política externa mais agressiva. “Não é um Trump que vai ficar moderado. Ele vai dobrar a aposta nas suas investidas externas”, diz, mencionando pressões sobre a Venezuela e interesses estratégicos na Groenlândia.

China: Autonomia e Redesenho Econômico

Em relação à China, Garman afirma que o objetivo do país não é substituir os EUA como potência global, mas sim reduzir sua dependência econômica e financeira de Washington. “O grande driver na China é aumentar a autonomia nas cadeias produtivas, reduzir vulnerabilidades e reforçar presença internacional”, explica.

Ele prevê um período de “detente” (período de redução de tensões) nas relações bilaterais pelos próximos dois anos, mas alerta que, nos cinco anos seguintes, os EUA devem intensificar restrições ao capital chinês e ao acesso de empresas chinesas a setores estratégicos.

Tecnologia: O Novo Tabuleiro do Poder Global

A corrida tecnológica é, para Garman, o campo mais decisivo dessa disputa. A China concentra esforços em inteligência artificial industrial e produção de chips, enquanto os Estados Unidos priorizam IA generalista e tecnologias voltadas ao consumidor. “Cada um corre para objetivos diferentes, mas a competição é intensa e global”, resume.

Para o mercado financeiro, isso tem um efeito imediato: qualquer conflito – comercial, tecnológico ou militar – afeta preços de ativos, moedas, commodities e expectativas de crescimento. “A década passada já mostrou sinais claros desse novo padrão”, conclui.

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