26 de fevereiro de 2026

​Coruja azul e “baratas” de Dimon: crise volta a assombrar mercado de crédito dos EUA 

Suspensão de resgates, receio de bolha em IA e novos alertas do chefão do JPMorgan aumentam a pressão sobre um mercado de US$ 1,8 trilhão que pode abalar o mundo – mas realmente há razões para se preocupar?
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O mercado de crédito dos Estados Unidos voltou a conviver com uma palavra incômoda: crise.

O CEO do JPMorgan Chase, Jamie Dimon, alertou ainda no ano passado que “quando você vê uma barata, provavelmente há mais”, em referência a problemas pontuais no crédito que poderiam ser sinais de algo maior. E agora ele voltou a fazer o alerta, citando paralelos com os momentos que precederam a crise 2008.

O problema é que a “barata” apareceu: a Blue Owl Capital, que mudou as regras de resgate de um de seus fundos de crédito privado e deixou o mercado todo de cabelo em pé.

O que aconteceu?

A Blue Owl vendeu US$ 1,4 bilhão em empréstimos de três fundos. Parte desse valor será usada para devolver 30% do dinheiro aos investidores do fundo OBDC II.

Ao mesmo tempo, a gestora encerrou a possibilidade de resgates trimestrais limitados a 5% do patrimônio. Em vez disso, os investidores passarão a receber devoluções conforme os ativos forem vendidos.

Em comunicado, a empresa afirmou que, “em vez de retomar uma oferta de recompra de 5% por trimestre, estamos devolvendo seis vezes mais capital e retornando-o a todos os acionistas nos próximos 45 dias”.

O mercado não gostou. As ações da Blue Owl acumulam queda de cerca de 60% em 13 meses, e o movimento pressionou também outras gestoras de crédito privado.

Por que isso preocupa?

O ponto central é que muitos fundos prometem algum nível de liquidez, mas investem em ativos que não são fáceis de vender rapidamente.

Quando muitos investidores querem sair ao mesmo tempo, o gestor pode ser forçado a vender empréstimos ou limitar resgates. Foi o que aconteceu.

A Morningstar classificou o caso como uma “lição dura” para quem investe em fundos semilíquidos. Na prática, o investidor deixa de escolher quando sair e passa a depender do ritmo de venda dos ativos.

A IA entrou na conta

Além da questão da liquidez, há outro fator pressionando o setor: a inteligência artificial.

Pesquisa do Bank of America mostrou que o medo de uma “bolha de IA” virou a principal preocupação de investidores em crédito. Hoje, 23% dos entrevistados apontam esse risco como o maior do mercado, contra 9% em dezembro.

A situação vem piorando à medida em que a IA ameaça romper com negócios de empresas de diversos setores. Recentemente, as vítimas foram as de software como serviço (SaaS, na sigla em inglês). O problema: muitos fundos de crédito têm exposição relevante a empresas de software.

Segundo a JGP, o setor representa cerca de 20% do portfólio agregado das estruturas de BDC, como a Blue Owl. Se a IA mudar rapidamente o cenário competitivo, parte dessas empresas pode sofrer.

Paralelos com a crise de 2008

Alguns gestores veem paralelos com o ano anterior à crise do subprime de 2008.

Orlando Gemes, da Fourier Asset Management, afirmou que “os sinais de alerta que estamos vendo no crédito privado hoje são surpreendentemente familiares aos de 2007”. Mohamed El-Erian questionou se o momento poderia ser um “canário na mina de carvão”, um alerta inicial de algo maior.

O secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, também afirmou que o governo está atento. “Estamos preocupados”, disse, destacando que investidores individuais não podem ser os mais prejudicados.

Já é uma crise?

Por enquanto, os números não mostram um aumento expressivo de calotes.

O índice Cliffwater Direct Lending apontou retorno de 9,33% em 2025. As perdas realizadas ficaram em 0,70% no ano, abaixo da média histórica. Os empréstimos problemáticos seguem em patamar considerado controlado.

Isso sugere que o temor está mais ligado ao que pode acontecer do que a um problema já disseminado. Diante disso, nem todos enxergam um cenário dramático.

Ao InfoMoney, um gestor de crédito de uma grande gestora global avalia que, de forma geral, o mercado americano segue em “boa condição”.

Segundo a casa, como o temor de recessão circula há alguns anos, em meio às discussões sobre o tipo de “aterrissagem” da economia americana, empresas teriam adotado postura mais conservadora, reduzindo investimentos, alongando prazos de dívida e preservando caixa para reforçar liquidez.

Na avaliação da gestora, a maioria das companhias dispõe hoje de “colchão” suficiente para enfrentar uma desaceleração moderada. Isso não elimina riscos, mas sugere capacidade de absorção de choques. A ressalva está nos chamados riscos de cauda.

Alocação com cautela

Boa parte das casas de análise brasileiras já recomendavam cautela com alocação em renda fixa americana na virada do ano, indicações que se mantêm diante do caso Blue Owl.

No entanto, para Bernardo Queima, CEO da Gama Investimentos, a tese estrutural de alocação em renda fixa dos EUA e de outros mercados desenvolvidos segue válida, mesmo considerando o fluxo atual que favorece emergentes.

“A renda fixa global, especialmente em moeda forte, introduz exposição a um ciclo econômico e regime monetário distintos, melhorando de forma relevante a eficiência da carteira por meio de menor correlação e melhor retorno ajustado ao risco”, aponta.

Para a casa, o foco precisa estar em fundamentos e retorno esperado. “Ir contra a maré não é necessariamente ser contrarian. Pode ser disciplina”, diz.

Brasil corre o mesmo risco?

Segundo a JGP, o Brasil tem características que reduzem parte dos riscos observados nos EUA. Em carta, a gestora afirma que é raro encontrar tranches de veículos de crédito subordinadas/alavancadas (o que seria equivalente às ações das BDCs) até mesmo entre investidores institucionais. No Brasil, essas estruturas costumam ficar com os próprios originadores dos empréstimos.

“Essas diferenças não significam que não devamos aprender com as experiências americanas”, alerta a JGP, acrescentando que expandir agressivamente os veículos em função de crescimento para o mercado de ações, deixando de lado uma estrutura mais prudente de passivo, “são ações que devemos guardar para não repetir aqui”.

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