3 de abril de 2026

​Crédito cresce, mas famílias pagam juros caros e dívidas ‘mordem’ 29% da renda 

Dados do Banco Central revelam um “estrangulamento” do orçamento doméstico; especialistas alertam que a alta dependência de cartões e consignados pode frear a economia em 2026.
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O endividamento das famílias brasileiras, sem considerar o financiamento imobiliário, cresceu 30,9% ao longo da última década (de janeiro de 2016 a janeiro de 2026). Hoje, o comprometimento da renda total com o pagamento de dívidas atinge a marca de 29,3%, segundo dados recentes do Banco Central (BC). Os números mostram um perigoso estrangulamento do orçamento doméstico, que vai muito além do problema individual: eles apontam para o risco iminente de perda de força do consumo e, consequentemente, da própria economia do país.

Para Flávio Ataliba Barreto, pesquisador associado do FGV IBRE, o cenário é de “alerta extremo”, com o endividamento alcançando 49,7% dos brasileiros até o início deste ano. 

“Significa que, cada vez mais, as famílias estão estranguladas nesse limite de consumo. Grande parte da população brasileira é de renda baixa e média. Imaginar que quase 30% dessa renda, que já é pouca, está comprometida com dívida é algo extremamente elevado, porque se trata, basicamente, de despesas essenciais”, afirma o pesquisador.

O impacto desse sufoco financeiro reverbera diretamente no Produto Interno Bruto (PIB). Como o consumo das famílias representa a maior parcela da demanda agregada no Brasil, a combinação entre juros elevados, alto comprometimento de renda e inadimplência crescente retira a capacidade de expansão dos gastos. Isso significa que o endividamento recorde pode ser um dos grandes freios para o crescimento econômico do país nos próximos meses.

Endividamento e comprometimento de renda das famílias (%) em 10 anosPeríodoEndividamento totalEndividamento sem financiamento imobiliárioComprometimento de renda totalComprometimento de renda sem financiamento imobiliáriojan.-201640,123,923,621,6jan.-201738,122,223,421,4jan.-201837,321,822,220,2jan.-201939,323,523,121jan.-202041,525,72321jan.-202142,125,822,720,6jan.-202249,631,226,724,5jan.-20234931,12826jan.-202447,830,126,224,1jan.-202548,630,627,725,5jan-2026*49,731,329,327,1Variação em 10 anos23,90%30,90%24,10%25,40%

Fonte: Banco Central

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A grande assimetria: por que pagamos tão caro?

Analisando os dados do BC, Ataliba destaca que o endividamento das famílias deu um salto no pós-pandemia: girava em torno de 37% a 42% até 2021, rompeu a barreira dos 49% a partir de 2022 e mantém-se elevado. Mas por que o crédito pesa tanto no bolso do cidadão comum?

A resposta está em uma profunda assimetria na economia brasileira, explica o pesquisador. Enquanto as famílias pagam taxas exorbitantes, o governo e as grandes empresas encontram caminhos alternativos e mais baratos para se financiar no mercado de capitais. O governo emite títulos públicos altamente atrativos, absorvendo grande parte do dinheiro disponível no mercado.

Com essa absorção de recursos pelo Estado e grandes corporações (o chamado “efeito de deslocamento” ou crowding out), sobra menos dinheiro nos bancos para emprestar à população, segundo Ataliba. O resultado? O crédito bancário fica escasso e muito mais caro.

Os números confirmam essa desigualdade. Em fevereiro de 2026, o “crédito ampliado” na economia atingiu R$ 21 trilhões (163,7% do PIB), impulsionado principalmente pelo avanço dos títulos públicos (+17,2%) e privados (+18,5%). O crédito livre para pessoas físicas, no entanto, opera em outra realidade: a taxa média chegou a estratosféricos 62% ao ano, bem acima das empresas (24,9%).

“O crédito não falta na economia — ele está mal distribuído. Os dados mostram que o crédito cresce, mas de forma desigual — e quem paga essa conta são as famílias”, avalia Ataliba.

Armadilhas do consignado e cartão

A dependência do crédito caro se reflete nas modalidades mais buscadas pelos brasileiros. O avanço tem sido puxado pelo crédito consignado para trabalhadores do setor privado (que saltou 247,7% em 12 meses) e pelo cartão de crédito (aumento de 11,8%).

No consignado com desconto em folha, o grande risco é a ilusão financeira. Ao não considerar que terá um salário líquido menor caindo na conta todo mês, o trabalhador acaba ficando sem margem para quitar os seus custos básicos de vida, precisando recorrer a novas dívidas para fechar o mês.

Já no segmento de cartão de crédito, as compras parceladas avançaram 21%, enquanto o temido crédito rotativo subiu 9,3% — modalidade que permite rolar a fatura, mas a juros que rapidamente multiplicam a dívida original.

ProdutoVariação (%)Consignado para trabalhadores setor privado247,7Cartão de crédito Parcelado21Cartão de crédito – Total11,8Cartão de crédito à vista11,5Não consignado11,1Cheque especial9,5Cartão de crédito Rotativo9,3Aquisição de veículos7,5Crédito pessoal total6,8Crédito pessoal consignado total2,2Consignado para servidores públicos-5,6Consignado para beneficiários do INSS-37,3

Fonte: Banco Central

O risco de limitar o parcelado

Diante desse cenário de asfixia e pressão da inflação, o governo federal tem cobrado da equipe econômica alternativas para aliviar as famílias. Entre as propostas está a regulação e o limite às taxas de juros do cartão de crédito.

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No entanto, especialistas alertam que a medida pode não surtir o efeito desejado. Em análise recente, o banco Morgan Stanley apontou que entre 75% e 80% dos saldos dos cartões no Brasil não geram juros para os emissores, justamente devido à popularidade das compras parceladas sem juros.

Na prática, existe um subsídio cruzado: a pequena parcela de clientes que cai no rotativo (pagando juros altíssimos) acaba por financiar os custos e calotes de todo o ecossistema de cartões, sustentando o “parcelado sem juros” da maioria. O alerta do Morgan Stanley é que impor um limite artificial às taxas do rotativo afetaria essa engrenagem, forçando os bancos a acabarem com o parcelamento sem juros. Isso prejudicaria diretamente os consumidores e derrubaria o volume de vendas no varejo.

Para Flávio Ataliba, intervir no cartão de crédito não ataca a raiz do problema. Embora exista o fator comportamental do consumo, a “arquitetura macroeconômica” do Brasil é o verdadeiro obstáculo. 

A solução definitiva para o endividamento, defende o pesquisador, exige reformas estruturais: a redução contínua da taxa Selic, a diminuição da concentração bancária e, fundamentalmente, a redução do excesso de participação do governo como o grande tomador de crédito no mercado brasileiro.

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