Danos a equipamentos, ausência de atores e interrupções de gravação são alguns dos riscos cobertos pelos contratos
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Em frente a uma delegacia de Recife, em 1977, milicianos e mercenários trocam tiros. No confronto, sangue, perseguição e mortes se sucedem em segundos. Essa é uma das cenas de ação mais intensas de “O Agente Secreto”, longa que pode levar os troféus de melhor filme, melhor ator, melhor filme internacional e melhor direção de elenco no Oscar deste domingo (15).
Mas por trás de uma cena como essa, existe um elemento pouco visível para o público: o seguro para produções cinematográficas, como filmes, séries e documentários. Em filmagens que reúnem equipamentos caros e dezenas — às vezes centenas — de profissionais, um único imprevisto pode provocar atrasos nas filmagens e prejuízos milionários.
“Se um ator principal adoece, por exemplo, toda a agenda de gravação pode ser impactada, gerando custos adicionais com locação, equipe e logística. O seguro ajuda a absorver esses custos e manter a produção viável”, diz Camila Peres, coordenadora de Responsabilidade Civil na corretora de seguros MDS Brasil.
Segundo Peres, investidores, patrocinadores e distribuidores frequentemente exigem a contratação de seguro antes da liberação de recursos, justamente para reduzir os riscos financeiros do projeto.
“A exposição da produtora começa muito antes de apertar o ‘REC’. Desde a fase de desenvolvimento, como nas reuniões entre roteiristas, no casting e na visita técnica, a produtora já passa a estar exposta a diferentes riscos”, explica Bruno Amorim, diretor da Eventseg, corretora especializada em entretenimento.
Proteção contra imprevistos
O seguro para produções audiovisuais acompanha todas as etapas do projeto, da pré-produção até o fim das gravações, e tem como objetivo proteger o investimento da produtora diante de eventos inesperados.
Esse tipo de contrato constuma reunir várias coberturas. Entre as mais comuns estão:
Danos a equipamentos, como câmeras, lentes, iluminação, cabos e equipamentos de som;
Danos a cenários, figurinos e objetos de cena, que podem ser bastante valiosos em algumas produções;
Interrupção ou atraso nas filmagens por eventos inesperados em decorrência de acidentes cobertos e/ou eventos de força maior;
Acidentes pessoais com equipe e elenco, incluindo invalidez ou morte;
Responsabilidade civil, que cobre danos a terceiros durante a filmagem — por exemplo, alguém que se machuca nas proximidades do set.
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“Dependendo do projeto, também é possível incluir coberturas para não comparecimento de profissionais-chave, como atores principais ou diretor, viagens da equipe, transporte de equipamentos e até riscos climáticos.”
— salienta Camila Peres, da MDS Brasil
Segundo Amorim, há ainda o risco de violação de direitos autorais ou de propriedade intelectual, que pode surgir depois que o filme já está pronto — ou até anos após o lançamento — caso alguém alegue que a produção utilizou indevidamente uma criação protegida por lei.
“Pode acontecer com roteiro, trilha sonora, figurinos com criação artística original ou uso indevido de marcas”, diz.
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O risco de ausência do elenco
Uma das coberturas mais importantes no setor audiovisual é a chamada proteção para não comparecimento de pessoas essenciais para a produção, como diretores, protagonistas e dublês, que não conseguem participar das gravações por doença, acidente, sequestro ou outras situações inesperadas.
“Se um dos atores principais falece antes de terminar as filmagens, o seguro também cobre os gastos necessários para a continuidade do projeto”, afirma Mauricio Masferrer, diretor executivo de Negócios Corporativos da Allianz Seguros e Managing Director da Allianz Commercial Brasil. Para ele, essa cobertura é “primordial” para uma produção.
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Isso porque quando alguém do elenco ou pessoa essencial não comparece, a produção pode precisar interromper as gravações ou reorganizar o cronograma, o que envolve mais gastos.
“Houve situações em que a doença de um diretor ou de um ator principal durante a produção gerou atrasos significativos e custos extras milionários para a produção”, lembra Peres, da MDS.
Danos a equipamentos e cenários
Além do elenco, equipamentos cinematográficos representam uma parcela relevante do risco. Câmeras, lentes, iluminação e sistemas de som podem custar centenas de milhares de reais — itens que um seguro pode cobrir em caso de falhas ou estragos.
“O seguro cobre, ainda, danos ao cenário e ao set de filmagem, perda de material gravado no cartão de memória, danos a um veículo que esteja em cena, além do despesas extras decorrentes de impedimento de acesso por autoridade civil quando a filmagem é feita em locais públicos.”
— pontua Mauricio Masferrer, da Allianz
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O especialista da Allianz explica que, se as filmagens ocorrem na praia, por exemplo, é necessário que o seguro ofereça uma proteção adequada para possíveis problemas na câmera ocasionado pela areia ou pela água.
Também são cobertos acidentes pessoais com membros da equipe e situações de responsabilidade civil, como ferimentos de terceiros próximos ao set.
“Como as filmagens envolvem muitas pessoas, deslocamentos e equipamentos de alto valor, o ambiente naturalmente tem grande exposição a imprevistos”, diz Peres.
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Quanto custa esse tipo de seguro?
Segundo os especialistas, não é valor tabelado ou “fixo”. Documentários ou produções menores costumam contratar coberturas mais básicas, focadas na proteção de equipamentos e na responsabilidade civil. Já filmes de grande orçamento exigem estruturas mais robustas.
“O seguro mais comum, conhecido como ‘Film Package’, que protege a produção em si, costuma representar algo entre 0,5% e 1,5% do orçamento total do filme, considerando uma contratação sem grandes particularidades no projeto.”
— explica Bruno Amorim, da Eventseg
Para calcular um seguro de produção, a seguradora avalia fatores como:
orçamento do filmeduração das filmagensnúmero de locações e deslocamentoscomplexidade das cenasperfil da equipe histórico da produtora
“Produções com cenas de ação, viagens internacionais ou elenco de grande relevância tendem a exigir coberturas mais amplas e, consequentemente, um investimento maior em seguro”, explica a especialista da MDS.
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De acordo com Masferrer, da Allianz, no caso de séries, também é levado em consideração a quantidade de episódios a serem gravados e a periodicidade em que serão disponibilizados. Outro ponto a ser considerado é o cronograma da gravação.
“Se o cronograma for muito apertado e surgir algum imprevisto, sabemos que se torna mais complexo remanejar as datas das filmagens, o que acaba envolvendo um custo maior no processo”, afirma Masferrer.
“Quanto maior o orçamento e a exposição do projeto, mais detalhada é a análise de risco antes da emissão da apólice (contrato de seguro)”, conclui Peres.
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