Possibilidade de pedido de recuperação extrajudicial está em estudo; estratégia ousada e alavancagem em período de juros altos minaram saúde financeira da companhia
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A admissão oficial da Raízen (RAIZ4) de que a solução para sua crise financeira pode passar, se necessário, por um pedido de recuperação extrajudicial, explicitada em fato relevante no dia 4, é o ápice de um processo que vem se arrastando nos últimos anos.
Um verdadeira tempestade perfeita atingiu a companhia. Uma das principais causas da crise foi o endividamento crescente por apostas arriscadas de investimentos em projetos de transição energética que tiveram retornos mais lentos que o esperado. E a companhia também passou a apostar em áreas distante do core principal. Isso num ambiente de juros altos e de perdas operacionais por conta de condições severas do clima.
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A Raízen nasceu em 2011, de uma joint venture entre a Shell e o grupo Cosan (CSAN3), controlado por Rubens Ometto. A empresa se consolidou rapidamente como a maior produtora mundial de etanol de cana-de-açúcar e uma das principais no setor sucroalcooleiro brasileiro.
Desde 2016, a companhia passou a fazer uma aposta ousada, de apostar em projetos de longo prazo financiados com dívida.
Mas, como lembrou nesta semana em análise José Luiz Mendes, consultor de Estratégia e M&A da StoneX, essa é uma estratégia que funciona quando o juro está baixo. “Quando o ciclo virou [a Selic passou a subir], a conta apertou. Com alavancagem alta, qualquer choque – clima, preço, custo financeiro – vira crise. A seca e os incêndios foram gatilhos, mas não a causa raiz. Empresas menos alavancadas absorvem esses impactos; empresas muito alavancadas entram em espiral”, diagnosticou o especialista.
Uma dessas apostas de investimento foi o de projetos de etanol de segunda geração (E2G). A empresa foi fundo na tese de que haveria um prêmio relevante por ser um combustível mais limpo, que conversava diretamente com o fase global de transição energética.
Para Mendes, o problema foi a premissa financeira: o mercado não pagou esse prêmio na velocidade esperada. “Houve uma desconexão entre a narrativa ESG e a disposição real do cliente em pagar mais, além de um mercado de carbono ainda imaturo. Em outras palavras, escalou-se antes de validar o retorno econômico”, avaliou.
Além disso, enquanto a Raízen aportava recursos nessa tecnologia de fronteira, o etanol de milho cresceu rápido, com custo competitivo e execução bem mais simples. “A tese ‘verde’ acabou enfrentando uma concorrência pragmática que entregava resultado imediato.
Diversificação exagerada
Por fim, a grupo também errou, na opinião de especialistas em uma diversificação excessiva, que ia de trading e energia solar até uma parceria para explorar lojas da Oxxo no Brasil e internacionalização.
Apostas erradas da holding Cosan, como um investimento bilionário em ações da mineradora Vale podem entrar nessa conta também. “Quando o minério caiu e houve perda de valor, a Cosan perdeu capacidade de apoiar a Raízen.”, frisou Mendes.
A deterioração dos negócios pode ser explicada apenas na comparação dos resultados dos últimos exercícios fiscais. A Raízen teve lucro líquido de R$ 3 bilhões em 2021/2022, quando seu endividamento era de R$ 13,8 bilhões, ou 1,3 vezes o Ebitda, posição considerada saudável para suportar o ciclo de crescimento dos anos à frente.
No balanço do ano fiscal 2025/2026, no entanto, o prejuízo somou R$ 15,6 bilhões até o terceiro trimestre, devido a uma provisão não caixa de R$ 11 bilhões. Enquanto isso, a dívida líquida saltou para R$ 55,322 bilhões e a alavancagem subiu para 5,3 x.
Na teleconferência, os executivos frisaram que a empresa estava voltando a ter um foco no core business de produção de açúcar e etanol, e distribuição de combustíveis e lubrificantes. De fato, nos últimos anos, a empresa passou a vender negócios de baixo desempenho ou se livrou de ativos que simplesmente não faziam parte do core business original. A solução financeira de capitalização, no entanto, esbarrou na falta de acordo entre os sócios, cada vez mais pressionados pelos credores.
Veja abaixo uma linha do tempo sobre a crise da Raízen elaborada pelo InfoMoney:
2011 – Cosan e Shell anunciam uma joint venture e a criação da Raízen, para explorar a produção e comercialização de açúcar e etanol, bem como a geração de energia a partir do bagaço de cana.
2016 – Inicia fase de expansão e anuncia aposta firme em etanol de 2ª geração (E2G)
Agosto/2020 – Raízen anuncia joint venture com a Femsa, dona da rede Oxxo. Criam o Grupo NOS, com o objetivo de alavancar o negócio de lojas de conveniência em postos de combustível.
Agosto/2021 – Realiza o maior IPO do ano, que movimentou R$ 6,9 bilhões
2021 – Anuncia a compra da Biosev, subsidiária da Louis Dreyfus, por R$ 3,6 bilhões em dinheiro e ações
2021 – Grupo anuncia o início da construção da 3ª e da 4ª plantas de E2g, com a ampliação da capacidade de produção do biocombustível para 280 milhões de litros a partir de 2024.
2022 – O lucro líquido do ano fiscal 2021/2022 é de R$ 3 bilhões e o endividamento líquido soma R$ 13,8 bilhões, com uma alavancagem de 1,3 vezes o Ebitda
Dezembro/2022 – Itaú compra por R$ 4,115 bilhões em ações preferenciais da Cosa Nove, subsidiária da Cosa, parte do conglomerado Raízen
2023 – No balanço do ano fiscal, a companhia anuncia lucro líquido de R$ 3,9 bilhões, com o endividamento subiu para R$ 20,4 bilhões, embora a alavancagem tenha permanecido em 1,3 vezes o Ebitda.
2024 – A Raízen anuncia que seu lucro líquido caiu para R$ 1,3 bilhão, 67% abaixo do ganho do ano fiscal anterior; a dívida líquida ficou em R$ 19,154 bilhões e a alavancagem permaneceu em 1,3x.
Abril/2024 – Anuncia a venda de 31 projetos de usinas de geração solar distribuída (“UFVs”) para a Élis Energia, do Pátria Investimentos, por R$ 700 milhões
Novembro/2024 – Vende usinas de cana, com capacidade de 900 mil toneladas, para a Alta Mogiana por R$ 381 milhões
Novembro/2024 – Nelson Gomes substitui Ricardo Dell Aquila Mussa como diretor presidente da Raízen. Rafael Bergman entra no lugar de Carlos Alberto Bezerra de Moura como diretor financeiro e de relações com investidores
2025 – Anuncia prejuízo líquido de R$ 4,2 bilhões no ano 2024/2025 e empresa explica que a safra 2024/2025 de Etanol, Açúcar e Bioenergia (EAB), foi impactada pelo clima severamente seco; o endividamento subiu para R$ 34,2 bilhões e a alavancagem passou para 3,2x.
Janeiro/2025 – Cosan vende participação de cerca de 4% na mineradora Vale por R$9,1 bilhões
Março/2025 – Raízen recompra 50% da participação do Itaú na Cosa, por R$ 2,169 bilhões.
Maio/2025 – Raízen vende a Usina de Leme, em Piracicaba, por R$ 425 milhões, para a Ferrari Agroindústria e a Agromen Sementes Agrícolas
Junho/2025 – Anunciada a cisão entre Raízen e Raízen Energia
Julho/2025 – Anuncia que vai descontinuar a Usina Santa Elisa e repassa por R$ 1,045 bilhão 3,6 milhões de toneladas de cana-de-açúcar, incluindo cana própria e a cessão de contratos com fornecedores para um grupo de usinas lideradas pela Usina São Martinho
Julho/2025 – Vende para os grupo Thopen e Gera (com quem tinha uma joint venture) 55 ativos de geração distribuída, pelo valor agregado de aproximadamente R$ 600 milhões
Agosto/2025 – Vende para a Cocal Agroindustrial as Rio Brilhante e Passa Tempo, no município de Rio Brilhante (MS), por R$ 1,5 bilhão
Setembro/2025 – Grupos Raízen e Femsa decidem se separar: Shell Select e Shell Café permanecem apenas com a Raízen e mexicanos ficam encarregados de tocar sozinhos a Oxxo no Brasil.
Setembro/2025 – BTG e gestora Perfin fazem capitalização de R$ 10 bilhões na Cosan. É anunciado um plano de sucessão para Rubens Ometto, num prazo de seis anos
Novembro/2025 – Vende a usina Continental, localizada no município de Colômbia (SP), para o Grupo Colorado, por R$ 700 milhões
Novembro/2025 – Empresa perde o grau de investimento pela Moody’s
Fevereiro/2026 – Anunciado prejuízo de R$ 15,6 bilhões até o 3º trimestre do ano fiscal, explicado por uma provisão não caixa de R$ 11 bilhões; dívida líquida saltou para R$ 55,322 bilhões e a alavancagem subiu para 5,3 vezes o Ebitda
Fevereiro/2026 – S&P e Fitch tiram o grau de investimento da companhia
Fevereiro/2026 – Rumores de que a suíça Mercuria está próxima de comprar ativos da Raízen na Argentina por mais de US$1 bi
Março/2026 – Raízen Energia acerta a venda de três projetos de usinas solares para a Braso
Março/2026 – Shell se compromete em colocar R$ 3,5 bilhões na capitalização da Raízen, mas aguarda sinal semelhante da Cosan/negociação envolve R$ 500 milhões de um veículo controlado pela Aguassanta Investimentos., da família de Rubens Ometto Silveira de Mello
Março/2026 – Acordo entre sócios para capitalização falha e empresa admite que busca implementar solução ‘abrangente e definitiva’ para fortalecimento de sua estrutura de capital, que pode incluir uma recuperação extrajudicial
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