Mesmo com assinatura do tratado, varejistas franceses intensificaram movimento protecionista
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PARIS – Voto vencido no acordo entre a União Europeia e o Mercosul, a França ainda resiste a criação de uma das maiores zonas de livre comércio do mundo. Grandes empresas francesas dos setores de varejo e alimentação anunciaram que não pretendem comprar ou vender produtos provenientes do bloco sul-americano.
O movimento é encabeçado por grandes redes e reforçam a forte resistência dos produtores locais ao tratado. O presidente Emmanuel Macron enfrentou pressão interna de sindicatos agrícolas, parlamentares e governos regionais para barrar o acordo, sob o argumento de estariam em desvantagem diante das regras ambientais e sanitárias aplicadas aos países do Mercosul.
O Carrefour, maior grupo de supermercados da Europa, afirmou que não comercializará carne oriunda do Mercosul em suas lojas na França. “Nosso compromisso é com a produção francesa”, declarou Alexandre Bompard, CEO da rede, em entrevista a emissora BFM.
O grupo Les Mousquetaires, que controla as redes Intermarché e Netto, adotou posição semelhante. O presidente do conglomerado, Thierry Cotillard, afirmou em entrevistas concedidas a rádios francesas que a empresa não importará proteína animal do Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai. “Não compraremos carne bovina, suína nem de frango da América do Sul”, garantiu Cotillard em entrevista à rádio RTL. Ele acrescentou que a decisão vale tanto para produtos vendidos in natura quanto para itens industrializados de marca própria.
A rede E.Leclerc, líder de mercado na França, reiterou que não vende carne do Mercosul e que continuará recusando produtos que não atendam aos padrões europeus. Em entrevista a rádio France Inter, o presidente da empresa afirmou que “não faz sentido importar produtos que não respeitam as mesmas regras impostas aos produtores franceses”.
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O presidente da rede Auchan foi além: “Que futuro queremos para nossa agricultura? Eu entendo a raiva dos agricultores e produtores. É legítimo. Proteger nosso campo significa proteger nossa soberania alimentar. A França é um país rural e agrícola. Deve continuar assim”, postou Guillaume Darrasse, ao confirmar que produtos do bloco sul-americano ficarão de fora das prateleiras.
Já o Système U, que reúne supermercados independentes, informou que não comprará produtos do Mercosul quando houver equivalentes produzidos na França. A declaração foi feita pelo presidente da Coopérative U. “Se existe uma alternativa francesa, não iremos buscar produtos do outro lado do Atlântico”, afirmou.
As redes Lidl e Casino também fizeram movimentações para garantir a preferência de produtos franceses. Somadas, todas estas redes somam praticamente 90% do mercado de supermercados e hipermercados da França.
McDonald’s também confirma boicote
A filial francesa do McDonald’s também confirmou adesão ao movimento. Com mais de 1,5 mil restaurantes no país, a maior quantidade em toda a Europa, a rede afirmou que não pretende comprar produtos do Mercosul, mesmo após o acordo entre os blocos.
Em comunicado, a empresa declarou que “não há qualquer plano para modificar a atual estratégia de abastecimento”, baseada majoritariamente em fornecedores franceses e europeus.
Histórico de divergências
Apesar do movimento crescente, a atual resistência de redes francesas a produtos do Mercosul não surgiu agora. O embate entre grandes varejistas da França e a produção agropecuária brasileira já havia ganhado contornos institucionais no ano passado, quando declarações públicas de executivos franceses colocaram em dúvida a qualidade e a segurança sanitária da carne brasileira.
As falas provocaram reação imediata do setor produtivo do Brasil, que classificou os ataques como infundados e prejudiciais à reputação do país como fornecedor global de alimentos.
Em maio de 2025, a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) formalizou, em Bruxelas, uma petição junto à Comissão Europeia pedindo a abertura de uma investigação contra redes varejistas francesas. No documento, a entidade argumentou que os anúncios coordenados de boicote e as críticas públicas à carne brasileira poderiam violar regras de concorrência da União Europeia, além de desencorajar compradores e consumidores, mesmo com o cumprimento integral dos padrões sanitários exigidos pelo bloco.
A CNA também sustentou que a atuação dos varejistas contrariava o papel da Comissão Europeia como única negociadora comercial da União Europeia.
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