Ureia já registrou aumento de 33% no custo. Analistas avaliam que alta pode começar a ter efeitos na próxima safra, caso conflitos prossigam
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Para além da escalada nas cotações do petróleo, mais um impacto da guerra no Oriente Médio preocupa produtores brasileiros. É que o preço de alguns fertilizantes utilizados na agricultura, sobretudo os nitrogenados, vem subindo com interrupções na produção e exportações no Oriente Médio, o que reduz a oferta global e pode resultar em altas nos preços de alguns alimentos, como milho e soja, que dependem do fertilizante, ou até mesmo carnes e ovos, no longo prazo.
O Oriente Médio é responsável por 30% dos fertilizantes comercializados no mundo, segundo dados da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). Com o Estreito de Ormuz praticamente fechado, o frete fica mais caro e aumenta o custo de chegada dos insumos.
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As interrupções também podem atrasar embarques e reduzir a oferta no mercado global, enquanto a incerteza aumenta a oscilação de preços e dificulta o planejamento. Segundo dados compilados pelo Rabobank, aproximadamente 45% das exportações globais de ureia transitam direta ou indiretamente por rotas associadas ao Golfo Pérsico.
Dados da Associação Nacional para Difusão de Adubos (ANDA) mostram que o Brasil importa cerca de 85,7% dos fertilizantes utilizados na agricultura nacional. Em 2025, foram 43,32 milhões de toneladas de fertilizantes importados contra uma produção nacional de 7,22 milhões de toneladas. Os tipos mais importados no país são os nitrogenados, fosfatados, potássicos e NPK (composto dos três nutrientes).
Cerca de 15,8% dos fertilizantes nitrogenados importados pelo Brasil em 2025 vieram do Oriente Médio, enquanto China, Rússia e Nigéria responderam, em conjunto, por 70,4% desse volume, segundo estudo do Insper Agro Global com base em dados do Trade Data Monitor (2026).
Entre esses insumos se destaca a ureia, cujo preço já subiu 33% (incluindo custo e frete) no país desde o início do conflito, de acordo com a CNA, por conta do aumento dos preços do gás natural, matéria-prima utilizada em sua produção. Cerca de 35% da ureia brasileira tem origem nos países do bloco.
Para Alberto Pfeifer, pesquisador do Insper Agro Global, ainda é muito cedo para avaliar impactos diretos na agricultura brasileira.
“As safras em andamento já contam com estoques de fertilizantes internalizados, disponíveis. Esse impacto viria na próxima safra de verão, cujo plantio começa em agosto. Até lá, vai depender da evolução do conflito”, disse ele, acrescentando que nas culturas da soja e do milho, os fertilizantes respondem por cerca de 40% do custo total da safra.
Pfeifer lembra ainda que fertilizantes fosfatados também já estão demonstrando alterações de cerca de 8% nos preços, uma vez que também dependem do gás natural em sua produção.
Bruno Lucchi, diretor técnico da CNA, explica que o nitrogênio em estoque está sendo utilizado nas safras atuais, que concentram a maior parte do consumo desse fertilizante. Segundo ele, parte dos produtores já adquiriram os insumos para a próxima safra, mas o prazo para garantir as entregas costuma ir até junho. Assim, ainda há algumas semanas para avaliar se o conflito será encerrado e os preços começarão a recuar ou como será a acomodação do novo cenário pelo mercado.
No entanto, ele ressalta que outros países, como Estados Unidos, Índia e alguns da Europa, estão comprando nitrogenados neste momento, já que o plantio de milho nesses locais ocorre antes do brasileiro. Nos EUA, já havia expectativa de redução da área plantada com milho por outros fatores, e o encarecimento dos fertilizantes pode intensificar esse movimento.
“Esse aumento no custo da ureia e de outros fertilizantes nitrogenados pode impactar também nessa questão da área a ser plantada nesses países, então isso pode mudar a dinamica de produtos que hoje estão com preços de certa forma mais baixos, como o milho e a soja, do ponto de vista internacional”, explicou Lucchi.
Já Mauro Osaki, pesquisador de custos agrícolas do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada USP (Cepea), acredita que alguns produtores podem não ter feito a compra antecipada de fertilizantes por dificuldade de obtenção de crédito para compra de adubos e agora vai terão que enfrentar os novos valores.
“A cultura de trigo e cevada, por exemplo, pode ter consequências negativas. É uma cultura que vem com uma rentabilidade negativa já há algumas safras e isso dificulta ainda mais a tomada de decisão do produtor de ter o trigo como opção do sistema de cultivo. Então, quem não conseguiu comprar com certa antecipação, pode ser que a gente acabe colocando em xeque uma redução de área desse cereal ou o fator de produção para manter o mesmo nível de padrão tecnológico.”
Embora o Brasil possa direcionar as compras de fertilizantes para outros países, o problema é encontrar volume disponível, preço viável, frete competitivo e entrega no tempo certo da safra. Marcos Pelozato, advogado especialista em reestruturação empresarial com atuação no agronegócio, acredita que o mais provável é pagar mais caro para redirecionar compras, disputar carga com outros mercados e sofrer atrasos logísticos.
Dessa forma, os preços dos fertilizantes podem continuar subindo, e o custo pode ser repassado, em parte, para alguns alimentos.
“O maior risco para a população não é falta de comida no curto prazo, e sim comida mais cara. Quando um país importa cerca de 85% do fertilizante que usa, qualquer crise relevante em uma rota estratégica do comércio internacional deixa de ser um problema distante e passa a ser um fator real de pressão sobre a inflação dos alimentos no Brasil”, disse Pelozato.
Para ele, hortaliças, legumes e parte do hortifruti podem sentir efeitos antes, seguidos de grãos e derivados, especialmente milho, soja e trigo. Caso a guerra se estenda por mais tempo, no longo prazo, alimentos como carnes, ovos e leite podem ser impactados de forma indireta, já que milho e soja são base da ração animal.
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