10 de abril de 2026

​Mapa de Risco: “Cadê a picanha?” Frustração com renda vira termômetro da eleição 

Promessa simbólica expõe desconexão entre indicadores e percepção do eleitor
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A eleição de 2026 começa a ser moldada por uma pergunta simples: a vida melhorou ou não melhorou? Mais do que indicadores econômicos, é essa percepção que tem guiado o humor do eleitor e, consequentemente, a dinâmica da disputa.

No Mapa de Risco, programa de política do InfoMoney, a CEO do Instituto Ideia, Sila Schumann, resumiu esse sentimento com uma frase que tem se repetido nos grupos de pesquisa. “Eu votei no Lula, eu gosto do Lula, mas por que eu tenho que dar mais um mandato para o Lula? O que ele vai fazer com mais um mandato?”, relatou.

A dúvida não surge necessariamente de uma rejeição direta, mas de uma frustração com o resultado percebido no cotidiano.

Esse sentimento aparece de forma ainda mais clara quando se traduz em símbolos. “Cadê a picanha? Eu não vi a picanha”, disse Schumann, ao descrever uma das falas mais recorrentes entre eleitores ouvidos nas pesquisas qualitativas.

A referência, que marcou a campanha de 2022, passou a funcionar como um indicador direto de expectativa não atendida.

Entre o dado e a percepção

O ponto central, segundo a análise, é a desconexão entre o que mostram os indicadores macroeconômicos e o que o eleitor sente na prática. Ainda que variáveis como emprego e crescimento tenham apresentado melhora, isso não se traduz automaticamente em sensação de ganho de renda.

“A grande pergunta do eleitor é sempre essa: minha vida melhorou ou não melhorou”, afirmou Schumann. “E nesse caso, o que a gente sente do eleitor é ele dizendo: ‘não, minha vida não melhorou’.”

Ela detalha que o problema não está apenas na renda, mas na forma como ela é consumida pelas despesas do dia a dia. “Mesmo que eu tenha um emprego, eu estou sentindo que o meu carrinho não fica cheio, que a minha geladeira não fica cheia. E pior: você tem a questão da inadimplência, que é uma questão de gastos recorrentes. O dinheiro entra, mas ele já está comprometido e já sai, e não sobra nada para o consumo.” 

Essa percepção ajuda a explicar por que o custo de vida aparece como variável dominante na decisão de voto, superando debates mais técnicos sobre economia.

Motor do voto

A insatisfação não se limita ao presente, mas também envolve expectativas frustradas. “Eu acreditei quando o Lula falava da picanha, e cadê a picanha?”, relatou Schumann.

O exemplo, embora simbólico, traduz um sentimento mais amplo de que as promessas de campanha não se materializaram da forma esperada.

Para a analista, esse tipo de frustração tende a pesar especialmente entre os eleitores menos ideológicos — justamente aqueles que costumam decidir eleições mais apertadas. “É aquela pessoa que está ali correndo atrás e não conseguindo fechar o fim do mês”, disse.

Nesse grupo, a decisão de voto tende a ser mais pragmática e diretamente vinculada à experiência econômica individual.

O bolso no centro da disputa

Historicamente, eleições brasileiras acabam convergindo para o impacto financeiro no bolso do eleitor. Mesmo com ruídos ideológicos e temas paralelos, o fator determinante costuma ser o impacto direto na vida do eleitor.

“As campanhas, em geral, vão para o bolso: melhorou ou não melhorou. Se não é reeleição, ele vai votar em quem acredita que vai fazer a vida melhorar”, afirmou Schumann.

Esse padrão se repete em 2026, porém, com um agravante. O aumento do endividamento e a sensação de perda de poder de compra tornam o julgamento mais crítico.

O Mapa de Risco, programa de política do InfoMoney, vai ao ar todas as sextas-feiras, a partir das 5h da manhã, no YouTube e no seu tocador de podcast preferido.

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