Analistas veem maior ânimo imediato e avanços táticos no mercado, mas assimetria de objetivos entre os países é ponto de atenção
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Forte alta das bolsas mundiais, derrocada do petróleo.
O cessar-fogo de duas semanas anunciado pelo Estados Unidos na guerra contra o Irã trazia alívio e apetite por risco nos mercados nesta quarta-feira (8), enquanto os preços do petróleo caem para abaixo de US$100 o barril diante da expectativa de retomada dos fluxos de petróleo e gás pelo Estreito de Ormuz.
A reação do mercado foi rápida depois que o presidente dos EUA, Donald Trump, concordou com um cessar-fogo de duas semanas com o Irã menos de duas horas antes do fim do prazo para Teerã reabrir o Estreito de Ormuz ou enfrentar ataques devastadores à sua infraestrutura civil. O Estreito de Ormuz é a via navegável estreita que movimenta cerca de um quinto do comércio global de petróleo.
Trump fez o anúncio menos de duas horas antes do fim do prazo final que havia estabelecido para que o Irã reabrisse o estreito ou enfrentasse ataques devastadores contra sua infraestrutura civil. O Irã disse que cessará os contra-ataques e garantirá a passagem segura pela via navegável se os ataques contra o país forem interrompidos.
Conforme destaca Álvaro Maia, banker da Stonex, o impacto desse conflito tem sido significativo na economia, nas empresas e nos mercados.
Na economia, observa-se um cenário de incerteza. Bancos centrais, que antes sinalizavam possíveis quedas de juros como o Brasil, os Estados Unidos e Europa, agora indicam pausas e até eventuais altas. Isso altera de forma relevante a percepção e a precificação das taxas de juros.
Os governos também enfrentam dificuldades, aponta o especialista. “No Brasil, por exemplo, há uma busca por soluções paliativas para conter a alta do petróleo e do diesel. Com isso, o foco deixa de ser estrutural e passa a ser emergencial, voltado à mitigação dos efeitos da crise”, destaca.
Nos mercados financeiros, a volatilidade é elevada. As oscilações são constantes e fortemente influenciadas por declarações políticas quase diárias, o que aumenta a instabilidade e prejudica o ambiente de investimentos.
Já as empresas adotam uma postura mais cautelosa. Projetos e decisões estratégicas estão sendo adiados, à espera de maior clareza sobre o desfecho do conflito.
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Assim, aponta, o cessar-fogo anunciado ontem à noite trouxe alívio aos mercados, levando a uma reprecificação de ativos e a uma redução das tensões geopolíticas.
“Ainda assim, o cenário segue desafiador”, reforça, ressaltando que o petróleo ilustra bem essa dinâmica: “antes da guerra, o barril girava entre US$ 65 e US$ 70; chegou a atingir US$ 120 e, com o recente alívio, recuou para cerca de US$ 90. Vale lembrar que muitos analistas projetavam preços próximos a US$ 50 para este ano. Ou seja, mesmo com a queda recente, o patamar atual ainda é elevado e preocupante”.
Maia ainda reforça que, no Brasil, o ambiente político também sofre impactos, com perda de foco em agendas estruturais diante da necessidade de respostas imediatas à crise. Isso acaba ofuscando discussões importantes e atrasando expectativas em relação às ações do governo e de possíveis candidatos.
“Em resumo, o conflito segue sendo o principal fator de influência sobre a economia, os mercados e as decisões empresariais. Espera-se que as próximas semanas tragam um alívio mais consistente e que o cessar-fogo se sustente por um período mais prolongado”, conclui.
Na mesma linha, Olívia Flôres de Brás, CEO da Magno Investimentos, ressalta que o cessar-fogo anunciado por Donald Trump reduz a pressão imediata sobre os ativos, mas ainda está longe de eliminar o risco central que o mercado passou a precificar: a baixa previsibilidade de uma negociação sustentada por interesses estruturalmente incompatíveis.
“Mais do que a existência formal de uma pausa militar, o ponto relevante para os mercados é a capacidade de esse arranjo sobreviver a condicionantes que, neste momento, seguem desalinhadas”, destaca.
A suspensão temporária dos ataques foi vinculada à reabertura plena e segura do Estreito de Ormuz, enquanto o Irã tratou o recuo americano como validação da sua posição e passou a sustentar a negociação a partir de suas próprias exigências estratégicas. Em termos de mercado, isso significa que a trégua reduz o risco de cauda no curtíssimo prazo, mas não ancora a percepção de estabilidade, avalia.
“O problema é que a aparente convergência diplomática esconde uma assimetria relevante de objetivos. Os Estados Unidos precisam conter rapidamente o custo político, fiscal e inflacionário de uma escalada prolongada, sobretudo pelo impacto doméstico da energia. O Irã, por sua vez, busca alívio de sanções, liberação de ativos e preservação de pilares de soberania estratégica. Já Israel opera com um racional de segurança mais profundo, voltado não apenas à contenção, mas à redução duradoura da capacidade operacional iraniana”, aponta Olívia.
A visão da especialista é de que esse desalinhamento importa porque permite avanços táticos, mas limita a probabilidade de solução estrutural. “Para os mercados, isso mantém a leitura de que a pausa militar pode ser transitória, e não necessariamente um ponto de inflexão definitivo”.
Assim, Olívia pondera que os ativos continuam presos entre dois regimes de precificação. “O primeiro é o da normalização, em que a janela de duas semanas seria suficiente para consolidar algum tipo de acordo funcional, restabelecer fluxos críticos e reduzir o prêmio geopolítico embutido em energia e câmbio. O segundo é o da recaída, em que o cessar-fogo atua apenas como mecanismo de adiamento antes de uma nova rodada de escalada”.
O fato de o alívio de curto prazo não ter eliminado a preocupação com inflação global, atividade mais fraca e maior cautela em ativos de risco mostra que o mercado ainda não migrou integralmente para o primeiro cenário.
Se o conflito voltar a escalar, o eixo da discussão sai do campo diplomático e retorna ao campo macroeconômico, uma vez que Ormuz concentra aproximadamente 20% do fluxo global de petróleo e funciona como um dos principais pontos de sensibilidade da matriz energética mundial, elevando o prêmio de incerteza ao longo de toda a cadeia: frete marítimo, seguro, derivados, fertilizantes, custos industriais e, por consequência, inflação global.
Para Olívia, se a trégua de fato se sustentar, o cenário melhora, mas não volta ao ponto anterior ao conflito. “A reabertura de Ormuz reduziria a pressão mais aguda sobre petróleo e logística, e uma mesa de negociação formal ajudaria a transformar a pausa militar em processo diplomático. Ainda assim, cessar-fogo não recompõe imediatamente infraestrutura, não normaliza instantaneamente fluxos e, principalmente, não apaga o reposicionamento de expectativas que já ocorreu em energia, inflação implícita e ativos globais. Parte do ajuste já foi absorvida pelos preços e tende a continuar influenciando a leitura macro, mesmo num cenário de distensão”, aponta.
Ela avalia que, em termos práticos, parte do dano já está contratada. Os mercados já revisaram a probabilidade de choques de oferta mais frequentes, já ampliaram a sensibilidade a riscos no Oriente Médio e já recalibraram a percepção sobre crescimento global, custo de capital e resiliência de cadeias estratégicas. “Mesmo que a trégua sobreviva, o mundo que sai desse episódio é um mundo com prêmio geopolítico mais alto, com menor convicção sobre desinflação linear e com maior propensão a episódios de volatilidade abrupta. A guerra, portanto, já produziu efeito econômico relevante mesmo antes de qualquer desfecho definitivo”, destaca.
Assim, aponta que o ponto central para o mercado não é o anúncio da paz, mas a credibilidade da arquitetura que deveria sustentá-la sendo que, até aqui, os sinais seguem ambíguos. “Enquanto os agentes não enxergarem alinhamento mínimo entre os objetivos finais das partes, a paz seguirá sendo tratada como cenário possível, não como premissa consolidada”.
Cabe ressaltar que operadores de navios na Ásia, no Oriente Médio e na Europa receberam a possibilidade de reabertura do Estreito de Ormuz com alívio e cautela. Os dois primeiros navios a tentarem sair do Golfo Pérsico desde o anúncio parecem estar navegando juntos em direção às ilhas iranianas de Larak e Qeshm, segundo dados de rastreamento. Trata-se de um Suezmax sancionado pelos EUA e registrado no Irã, e um navio graneleiro de propriedade grega.
Embora o cessar-fogo seja bem-vindo, “é altamente improvável que o comércio no Golfo simplesmente seja retomado”, disse Neil Roberts, chefe da área marítima e de aviação da organização de seguros Lloyd’s Market Association. “A região permanece sob alto risco, sem que nenhuma das tensões subjacentes tenha sido resolvida.”
(com Reuters e Bloomberg)
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