20 de março de 2026

​Petróleo a US$ 110? Crise real ainda não chegou ao ocidente e preços podem subir mais 

O descompasso entre os futuros e o petróleo físico se deve em parte às agressivas tentativas dos Estados Unidos de conter os preços
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Três semanas após o início da guerra com o Irã, há uma lacuna crescente entre o preço dos futuros de petróleo e os abastecimentos que determinam os custos para os consumidores no mundo real.

O Brent global, referência internacional, saltou cerca de 50%, para cerca de US$ 110 por barril, à medida que o fechamento quase total do Estreito de Ormuz e os ataques a instalações de energia no Oriente Médio estrangulam a oferta. Mas o custo da maioria dos barris físicos está subindo ainda mais, já que a escassez de oferta impulsiona os preços dos produtos que os consumidores de fato utilizam, como gasolina, diesel e querosene de aviação.

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Refinarias na Ásia, a principal região consumidora, estão comprando cargas a milhares de milhas de distância, pagando prêmios altíssimos em relação ao Brent, enquanto tentam garantir qualquer volume disponível. Empresas de transporte rodoviário já começam a sentir o impacto dos combustíveis mais caros, e algumas partes do mundo estão reduzindo compras de combustíveis que movimentam navios. Com os preços do querosene de aviação acima de US$ 200 por barril, grandes companhias aéreas europeias dizem que os passageiros terão de arcar com os custos adicionais.

O descompasso entre os futuros — que são sustentados por centenas de bilhões de dólares em transações diárias — e o petróleo físico se deve em parte às agressivas tentativas dos Estados Unidos de conter os preços, incluindo a liberação de estoques emergenciais.

Na prática, a economia global está sofrendo um choque inflacionário maior do que o sugerido pelos futuros, algo que aumenta a pressão sobre os bancos centrais e sobre o governo Trump às vésperas das eleições legislativas de novembro.

“Quando você olha para os mercados de papel, eles se desconectaram totalmente dos mercados físicos”, disse Jeff Currie, diretor de estratégia de energy pathways do Carlyle Group Inc. “Estamos lidando com um enorme choque de oferta.”

O choque de preços pode piorar bastante. Os gigantes de Wall Street Goldman Sachs Group Inc. e Citigroup Inc. disseram esta semana que, se o conflito continuar, os futuros podem atingir máximas históricas nas próximas semanas, superando os US$ 147,50 registrados em 2008. É incomum que os preços físicos e futuros permaneçam tão distantes por longos períodos.

Essas projeções são impulsionadas pelo que a Agência Internacional de Energia descreveu como a maior interrupção de oferta de petróleo da história. O Goldman estima que cerca de 17 milhões de barris por dia que passam pelo Golfo Pérsico estejam sendo afetados pelo conflito.

O Brent se aproximou de US$ 120 duas vezes nas últimas duas semanas, um nível não visto desde 2022, aumentando a pressão sobre Washington para acalmar o mercado.

Na quinta-feira, o secretário do Tesouro, Scott Bessent, disse à Fox Business que, poucos dias depois de anunciar uma grande liberação de estoques, os EUA poderiam considerar outra, apesar das dúvidas sobre a viabilidade logística de fazê-lo.

Em seguida, ele fez comentários que chocaram operadores de petróleo já exaustos: os EUA poderiam suspender algumas sanções sobre o petróleo iraniano, apesar de estarem em guerra com Teerã. Traders ao redor do mundo, que há anos precisam tratar qualquer operação com o Irã com extrema cautela, reagiram com exasperação à notícia.

Outras iniciativas para conter os preços incluem a “dessanção” do petróleo russo em alto-mar, e há intensa especulação entre operadores de que os EUA podem estar intervindo no mercado de futuros — algo que Bessent negou. A volatilidade explosiva também tem limitado o tamanho das posições que os traders conseguem tomar, pois torna mais caro operar. Embora isso ajude a impor um teto aos futuros, o impacto é pequeno diante da interrupção em Ormuz.

“Os EUA praticamente esgotaram o arsenal para impedir que os preços subam, dado esse grau de incerteza, se o estreito não for reaberto e se a incerteza sobre danos físicos não for eliminada”, disse Christof Ruhl, conselheiro global da Crystol Energy e ex-economista da BP Plc, em entrevista à Bloomberg TV. “Então não há muito o que eles possam fazer.”

Os sinais de estresse também estão aumentando.

Armadores de contêineres estão adicionando sobretaxas de combustível, e oscilações gigantescas nos mercados de combustível marítimo estão levando alguns compradores a adiar grandes pedidos por causa da volatilidade dos preços.

Nos EUA, os preços da gasolina no varejo estão rapidamente se aproximando de US$ 4 por galão e o diesel já ultrapassou US$ 5. Na Alemanha, um vendedor de óleo para aquecimento disse que as pessoas só compram “quando é absolutamente necessário” devido aos preços elevados, enquanto companhias aéreas cancelaram alguns voos por conta da disparada do querosene.

“Movimentos nos mercados de energia se refletem quase imediatamente na nossa base de custos”, disse Pavel Kveten, CEO da Girteka Logistics, uma das maiores empresas de transporte rodoviário da Europa. O combustível responde por cerca de 30% dos custos de transporte da companhia, afirmou.

Evidenciando a corrida por barris físicos de petróleo, o preço de referência de Omã, no Oriente Médio, subiu para mais de US$ 162 por barril nesta semana. O Murban, dos Emirados Árabes Unidos, superou US$ 145. Com esses preços disparando, compradores asiáticos adquiriram o maior volume de petróleo americano em três anos, em busca de substitutos para os fluxos do Oriente Médio, que cada vez mais parecem estar bloqueados por mais tempo.

Por enquanto, a guerra não mostra sinais de arrefecimento, à medida que o conflito entra na quarta semana. Autoridades iranianas se tornaram relutantes até mesmo em discutir a reabertura de Ormuz, concentrando-se em sobreviver ao ataque dos EUA e de Israel, disse na sexta-feira uma pessoa envolvida em contatos diretos de alto nível com Teerã.

“Vemos pouca perspectiva de alívio para a crise de energia, que se aprofunda à medida que mais instalações são atingidas”, afirmou a analista Helima Croft, do RBC Capital Markets LLC, em nota. “Autoridades do governo têm dedicado muitas horas para tentar convencer participantes de mercado de que a interrupção será passageira, já que a guerra logo irá arrefecer. Ainda assim, nada aponta para um conflito limitado neste momento.”

© 2026 Bloomberg L.P.

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