15 de fevereiro de 2026

​Por que o gás natural, e não o petróleo, pode ser o “grande prêmio” da Venezuela 

O país sul‑americano possui gás natural que poderia ser extraído e exportado rapidamente, mas as sanções dos Estados Unidos — que agora estão sendo flexibilizadas — travaram esse desenvolvimento
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As reservas de petróleo da Venezuela podem ser vastas, mas algumas das melhores oportunidades para desenvolver rapidamente os recursos do país estão no mar, em bolsões de gás natural presos nas profundezas do leito oceânico.

Muitos desses campos de gás foram descobertos décadas atrás na costa leste do país, na fronteira com Trinidad e Tobago, nação formada por duas ilhas principais. Mas permaneceram em grande parte intocados enquanto a Venezuela concentrava seus esforços em extrair e vender petróleo.

Empresas como a Shell, com sede em Londres, querem produzir esse gás há muitos anos, muito antes de forças americanas capturarem o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, em janeiro. Isso contrasta com o apetite bem menor para se aventurar nos campos de petróleo venezuelanos, algo que muitas das maiores petroleiras do mundo relutam em fazer. Em parte porque a Venezuela, que protege de perto seus ativos de petróleo, tem sido mais disposta a dar acesso a empresas estrangeiras em seu gás natural.

“É como um brinquedo velho, mas novo”, disse Antero Alvarado, consultor de energia baseado em Caracas, capital venezuelana. “Você nunca abriu a caixa.”

As sanções dos Estados Unidos ao governo da Venezuela e à sua petroleira estatal, a Petróleos de Venezuela, têm sido alguns dos maiores obstáculos ao aumento da produção de gás, embora o Departamento do Tesouro venha afrouxando gradualmente as restrições, inclusive por meio de novas diretrizes emitidas na sexta-feira. Produzir e vender muito mais gás natural venezuelano também exigiria cooperação com Trinidad e Tobago.

Muitos dos campos de gás da Venezuela ficam ao longo da fronteira marítima com o país insular, que, ao contrário do vizinho, dispõe de infraestrutura para levar o combustível até a costa e exportá‑lo. Mas a relação entre os dois países — separados por idioma e por apenas 11 quilômetros de mar em alguns trechos — se deteriorou no último ano. (Trinidad, ex-colônia britânica, tem o inglês como língua oficial.)

Líderes venezuelanos se irritaram com a decisão de Trinidad de se alinhar aos Estados Unidos em relação ao governo Maduro. Sob Maduro, a Venezuela teve relações ainda mais hostis com outro vizinho de grandes reservas de energia, a Guiana. Não está claro se Delcy Rodríguez, vice-presidente de Maduro e sua sucessora, pretende reparar essas relações.

Dragon, um gigantesco campo de gás batizado em referência às águas agitadas que separam a Venezuela de Trinidad, está entre os projetos mais próximos de sair do papel. A Venezuela tentou há muitos anos extrair o gás ali enterrado, mas ficou sem dinheiro — um esforço malfadado marcado, em 2010, pelo naufrágio de uma sonda de exploração.

Em 2023, a Venezuela finalmente concordou em permitir que a Shell explorasse Dragon. A ideia era que sairia muito mais barato construir um pequeno gasoduto ligando Dragon à infraestrutura já existente em Trinidad do que começar tudo do zero na Venezuela, que não tem um terminal para exportar gás.

O fato de a Venezuela precisar do vizinho para levar seu gás ao mercado é uma das razões pelas quais o projeto tem boas chances de avançar, disse Francisco J. Monaldi, chefe do programa de energia para a América Latina na Universidade Rice, em Houston.

“A Venezuela não pode voltar atrás no acordo e monetizar esse gás em outro lugar como fez com o petróleo, então a Shell pode se sentir relativamente segura de que o país não vai mudar as regras”, afirmou Monaldi. Dragon e outro projeto de gás ao longo da fronteira marítima com Trinidad estão entre os poucos novos campos na Venezuela com boas chances de serem desenvolvidos nos próximos cinco anos, disse ele.

A BP, outra gigante de energia sediada em Londres, disse à agência Reuters nesta semana que está buscando autorização dos EUA para tocar esse segundo projeto, chamado Cocuina.

Novas licenças emitidas na sexta-feira pelo Departamento do Tesouro americano pareceram dar mais liberdade para que petroleiras e empresas de gás negociem com a Venezuela e operem no país. A Shell afirmou estar analisando o que essas novas permissões significam para seu projeto de gás offshore. A BP não respondeu imediatamente a pedidos de comentário.

“Eles estão costurando um ambiente que permita aos atores já presentes continuar operando”, disse Rachel Ziemba, pesquisadora sênior associada do Center for a New American Security.

Mas ainda há muitas dúvidas quanto a acesso à eletricidade, segurança e sistema bancário na Venezuela, acrescentou Ziemba.

Se Dragon decolar, o campo poderá gerar cerca de US$ 500 milhões por ano em receita, estimou Luisa Palacios, ex-presidente da refinaria americana Citgo Petroleum, com base em preços recentes do gás natural. Documentos do governo indicam que pelo menos 45% desse montante iriam para a Venezuela, na forma de impostos e royalties, acrescentou.

Mas o projeto avança aos trancos e barrancos, preso entre os dois países e as políticas dos EUA, que continuam limitando as atividades da Shell.

“São oportunidades que poderiam ser ativadas em questão de meses, com potencial de alguns bilhões de dólares em investimentos e produção nos próximos anos”, disse Wael Sawan, CEO da Shell, à rede CNBC na semana passada.

Os comentários, feitos após a divulgação dos resultados da Shell, foram um lembrete de que o horizonte de projetos de óleo e gás é longo — e mesmo empreendimentos em estágio avançado podem não começar a produzir antes de o presidente Donald Trump deixar o cargo.

Taylor Rogers, porta-voz da Casa Branca, disse que o governo Trump está “trabalhando com as autoridades interinas para tornar a Venezuela próspera novamente” e “garantir que empresas de petróleo e gás possam fazer investimentos sem precedentes” no país.

O secretário de Energia, Chris Wright, manifestou posteriormente apoio ao desenvolvimento do gás venezuelano.

“É um potencial ganha‑ganha para Trinidad e Tobago, um ganho para o mercado global de GNL e um ganho para a Venezuela”, disse Wright a repórteres em Caracas, referindo-se ao mercado de gás natural liquefeito para exportação.

Ainda é preciso acertar detalhes com a Venezuela, como exatamente a Shell fará a extração do gás.

Isso colocará à prova a relação entre Venezuela e Trinidad, que chegou a um ponto baixo no ano passado. Em outubro, a Assembleia Nacional venezuelana declarou a primeira-ministra de Trinidad e Tobago “persona non grata” depois que ela elogiou a atuação militar dos EUA na região. Rodríguez chegou a afirmar que o governo venezuelano estava interrompendo negociações com Trinidad e Tobago e cancelando contratos de gás.

“Todas as nossas esperanças e aspirações de obter gás venezuelano, o gás de Dragon, pareceram ir pelos ares”, disse Anthony Paul, que já trabalhou no ministério de Energia de Trinidad.

O gabinete da primeira-ministra de Trinidad e Tobago, Kamla Persad‑Bissessar, não respondeu a perguntas enviadas por escrito. O ministro de Energia, Roodal Moonilal, disse a repórteres no mês passado que o governo de Trinidad não recebeu qualquer notificação de cancelamento por parte da Venezuela. “Estamos otimistas”, afirmou Moonilal.

O país insular tem grande interesse em acessar os campos de gás da Venezuela porque a produção doméstica de gás vem caindo — um golpe sério para uma economia altamente dependente da exportação de combustível e derivados.

A Venezuela, por sua vez, desperdiça boa parte do gás que produz, contribuindo para as mudanças climáticas ao permitir que ele vaze ou seja queimado em tochas, processo conhecido como flaring. Em 2024, o país queimou quase tanto gás quanto os Estados Unidos — o maior produtor de petróleo e gás do mundo —, apesar de produzir bem menos energia, segundo o Banco Mundial.

“É do interesse de todos que cooperemos para desenvolver em conjunto esses recursos de gás natural”, disse Kevin Ramnarine, ex-ministro de Energia de Trinidad e Tobago.

Mais a oeste, perto da Colômbia, as empresas Eni e Repsol, da Itália e da Espanha, já produzem gás natural que a Venezuela usa para gerar eletricidade. O país costumava pagar por esse gás com petróleo, que as empresas depois podiam revender. Mas os Estados Unidos apertaram as sanções após o retorno de Trump ao poder, bloqueando esse tipo de pagamento.

A Eni não comentou de imediato, e a Repsol se recusou a dizer se as novas isenções concedidas na sexta-feira pelo Tesouro americano permitirão que as empresas aceitem pagamentos da Venezuela.

A Eni, que também tem participação em campos de petróleo venezuelanos, já afirmou que estaria disposta a aumentar a produção, desde que volte a receber pelos fornecimentos.

Ainda assim, qualquer aumento na produção de gás no lado oeste do país seria limitado pela capacidade da Venezuela de usar esse gás internamente. Um gasoduto desativado liga o país à Colômbia, mas precisaria ser reparado.

“A questão”, disse Monaldi, da Universidade Rice, “é: quem vai fazer esse investimento?”

c.2026 The New York Times Company

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