31 de março de 2026

​Quando o Apple Watch vira seu chefe: a obsessão por frequência cardíaca no escritório 

Funcionários estão ficando obcecados em otimizar o ritmo do coração em seus trabalhos, e há dúvidas se isso é necessário
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O doutor Ravi Solanki obteve um diploma de medicina e um Ph.D. na Universidade de Cambridge e trabalhou em uma unidade de terapia intensiva durante a pandemia. Mas foi só no ano passado, não muito depois de se mudar para a região da baía de São Francisco por causa da empresa de inteligência artificial que dirige, que ele passou a prestar atenção à variabilidade da frequência cardíaca, ou HRV na sigla em inglês.

De repente, ele estava cercado por profissionais de tecnologia e começou a usar uma pulseira que monitora dados de saúde e condicionamento físico, como é costume local. Ele aprendeu que a HRV — basicamente uma medida de quão irregular é a sua frequência cardíaca — está correlacionada à saúde do cérebro e do corpo e passou a se concentrar em melhorá-la.

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Em sua equipe de cerca de 30 pessoas, “muita gente tem Whoop”, disse Solanki, referindo-se à pulseira inteligente de monitoramento de saúde. “Como grupo, comparamos os dados. É bem divertido, e também bastante agregador. Ajudamos uns aos outros — ‘O que podemos fazer para melhorar o desempenho na HRV?’”

À medida que dispositivos vestíveis como Fitbits e Apple Watches se proliferaram nas últimas uma ou duas décadas, muitas pessoas passaram a ajustar seus hábitos de saúde e bem-estar para melhorar o funcionamento do corpo.

Mas, nos últimos anos, cada vez mais entusiastas de tecnologia têm direcionado esses esforços de biohacking não apenas para o desempenho na academia, mas também no escritório. A busca antes excêntrica pela imortalidade está se tornando parte da rotina das nove às cinco.

A tendência deu origem a uma pequena indústria de coaches e gurus que treinam profissionais de escritório a elevar sua HRV, ou ajudam empresas a treinar funcionários para aumentar a deles.

Empresas de software criaram painéis que permitem a um coach de HRV acompanhar e analisar os dados dos funcionários e compartilhar médias de equipe com os gestores. Matt Bennett, fundador da Optimal HRV, que produz um desses painéis, disse que as assinaturas do serviço aumentaram mais de dez vezes desde 2020, chegando a mais de 4.000.

Cada vez mais, ao que parece, profissionais de escritório que querem se destacar estão obcecados com sua HRV. Tim Ferriss, influenciador e autor de “Trabalhe 4 Horas por Semana”, disse que conheceu a HRV por meio de um amigo que “trabalha com muitos dos investidores de melhor desempenho no mercado financeiro”. Ele acrescentou: “Todos eles usam HRV.”

Deveriam?

Monitoramento físico chega ao ambiente de trabalho

Para os não iniciados, ter uma frequência cardíaca mais variável pode parecer um desastre iminente, uma sensação que você associa ao momento imediatamente antes de desmaiar e acordar preso a uma maca.

Na verdade, maior variabilidade da frequência cardíaca — um coração que não bate exatamente a cada segundo, mas, por exemplo, após 1,1 segundo, depois 1,05, depois 0,95, depois 1 — tende a refletir resiliência fisiológica. Uma pessoa com HRV mais alta consegue recuperar o equilíbrio mais rapidamente após um susto do que alguém com HRV baixa.

A HRV também é um indicador relativamente confiável da saúde geral: normalmente diminui quando alguém está se alimentando ou dormindo mal, ou sobrecarregando o corpo.

(A arritmia cardíaca, uma condição médica potencialmente grave, pode se manifestar de forma semelhante, mas suas variações de frequência cardíaca tendem a ser mais erráticas.)

Embora o biohacking já seja popular há muito tempo no setor de tecnologia, um número crescente de pessoas focadas em desempenho parece atuar em direito, marketing e outras áreas. Muitas das pessoas que responderam a um questionário recente do New York Times disseram que começaram a medir a HRV por interesse em saúde e bem-estar.

Scott Braunstein, diretor médico da Sollis Health, que oferece um serviço de concierge para atendimento médico urgente, disse que as medições de HRV feitas durante o sono são mais precisas e que fatores como alimentação ou exercício influenciam as leituras feitas ao longo do dia.

Para alguns profissionais de escritório, a sensibilidade da HRV é justamente o seu maior atrativo.

Quando Pete Zelles começou a fazer apresentações para executivos seniores na grande empresa de telecomunicações onde trabalhava, a ansiedade o deixava tonto. Corredor e ciclista dedicado, ele decidiu usar seus dispositivos vestíveis para resolver o problema.

Ele acabou adotando um regime de exercícios moderados na manhã das apresentações e de permanecer em pé antes delas para gastar a energia nervosa.

Ainda assim, ele espera fazer algo ainda mais valioso com os dados de seus dispositivos: alimentá-los em ferramentas de IA que possam “revelar verdades mais profundas e orientações preditivas”.

Melhorar a HRV significa ter mais saúde?

Para ajudar clientes a aumentar sua HRV, alguns consultores os treinam a respirar em um ritmo lento e constante conhecido como “frequência de ressonância” por alguns minutos por dia. A frequência de ressonância varia de pessoa para pessoa, disse Inna Khazan, psicóloga clínica e de desempenho da Harvard Medical School, mas geralmente significa inspirar e expirar de três vezes e meia a sete vezes por minuto.

Uma advogada de uma empresa financeira que não quis se identificar disse que aumentou sua HRV ao trabalhar a respiração com Khazan e sentiu que isso aprimorou sua capacidade mental. Isso está de acordo com estudos que indicam que essas técnicas podem melhorar funções executivas e condições como depressão, embora parte das pesquisas ainda esteja em estágio inicial ou precise de mais rigor.

Outros especialistas questionam se faz sentido focar diretamente em melhorar a HRV, em vez de enfatizar a saúde geral e a resiliência ao estresse.

“Poderíamos nos privar de comida e nossa frequência cardíaca seria baixa, a HRV seria alta”, disse Marco Altini, cientista de dados focado em fisiologia. “Mas isso não seria uma condição saudável.” (Altini, ainda assim, concorda que técnicas de respiração podem ajudar a reduzir a ansiedade.)

De qualquer forma, esse tipo de coaching de HRV está se tornando um negócio lucrativo, com clientes em tecnologia, direito, finanças, grandes corporações e até nos departamentos administrativos de equipes esportivas profissionais.

Uma sensação efervescente no corpo

Em dezembro, Leah Lagos, psicóloga de desempenho e especialista em HRV, me enviou um laptop e dois sensores para que pudesse identificar minha frequência de respiração em ressonância e me orientar sobre os benefícios de respirar nesse ritmo por 15 minutos, duas vezes ao dia.

Lagos disse que trabalha com atletas profissionais, executivos corporativos, gestores de fundos hedge e sócios de escritórios de advocacia, entre outros. Na visão dela, profissionais altamente qualificados de escritório são “atletas biológicos” que devem buscar otimizar seu “eu cognitivo”, e afirmou que exercícios regulares de respiração podem tornar isso mais consistente.

“Talvez o seu melhor desempenho seja das 8h às 14h”, disse ela. “Mas isso pode lhe dar mais duas ou três horas.”

Depois de calcular minha HRV de base, ela configurou um marcador eletrônico no monitor do laptop que alternava entre intervalos de quatro e seis segundos. Ela me instruiu a inspirar pelo nariz durante o intervalo mais curto e expirar pela boca durante o mais longo.

Quando terminamos, minha HRV havia aumentado substancialmente, de acordo com os números na tela. “A maioria das pessoas percebe a atividade da mente, a clareza — esse costuma ser o primeiro sinal de ressonância”, disse ela. “Outro é que as pessoas dizem sentir uma espécie de efervescência no corpo.” Tive de admitir que senti algo assim.

Ainda assim, é difícil não se perguntar se todo esse biohacking não se tornou excessivo. Entre as pessoas com quem conversei, a HRV muitas vezes era apenas a ponta do iceberg. Alguns disseram que tinham vários dispositivos — relógios, anéis, pulseiras, monitores contínuos de glicose — ou que tentavam otimizar seus números como se estivessem jogando um videogame.

Outros usavam esses dados para decidir em que horário do dia deveriam realizar tarefas mais exigentes e reorganizavam suas rotinas em função disso.

Michelle Cicale, assistente executiva em uma empresa de serviços financeiros, disse que usa sauna infravermelha e luz vermelha para ajudar a melhorar sua HRV, que acompanha com um Apple Watch. Ela contou que decidiu limitar seu biohacking a alguns poucos rituais depois de ver amigos exagerarem.

“Já vi gente enlouquecer com isso”, disse.

Para quem tem ansiedade — e, convenhamos, quem não tem? — monitorar relógios e anéis pode se tornar uma compulsão.

“O que essa tecnologia fez foi criar uma dependência, um tipo de comportamento de busca por segurança”, disse Bonnie Zucker, psicóloga clínica em Los Angeles especializada em ansiedade relacionada à saúde e transtorno do pânico.

Segundo ela, verificar os dispositivos não é muito diferente de lavar as mãos repetidamente ou checar se a porta está trancada: pode aliviar momentaneamente, mas rapidamente se torna algo patológico.

E tudo isso acontece ao mesmo tempo em que a inteligência artificial avança sobre empregos de escritório, o que pode apenas aumentar a ansiedade por melhor desempenho no trabalho.

Algumas das pessoas adeptas do biohacking com quem conversei trabalhavam com IA ou, como Zelles, estavam muito conscientes de seu rápido avanço. Talvez, na corrida para ficar à frente das máquinas, seja tentador tentar nos tornar cada vez mais parecidos com elas.

c.2026 The New York Times Company

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