15 de março de 2026

​Queda do Bitcoin em 2025 não foi acidente: CIO explica o que aconteceu 

O mercado de cripto tem uma base grande de investidores de varejo que se ancoram em ciclos
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A correção do Bitcoin nos últimos meses não foi acidente nem sinal de colapso estrutural. Foi, na leitura de Samir Kerbage, sócio-fundador e CIO da Hashdex, a confluência previsível de três forças simultâneas: um ambiente macroeconômico adverso, a ausência de um marco regulatório permanente nos Estados Unidos e um ciclo de quatro anos que o próprio gestor havia antecipado por escrito em 2023. A combinação gerou vendas intensas num mercado sem compradores suficientes para absorvê-las.

O diagnóstico de Kerbage começa pelo macro. Como ativo de risco com duration longo — ou seja, cuja tese se realiza no horizonte de anos ou décadas —, o cripto é extraordinariamente sensível a qualquer mudança nas condições de política monetária. Aperto ou afrouxamento: qualquer sinalização se traduz quase imediatamente em movimentação de preços, amplificando a volatilidade natural da classe.

A análise foi apresentada no episódio 182 do Outliers InfoMoney, programa comandado por Clara Sodré, analista de fundos da XP, e Fabiano Cintra, responsável pela seleção de fundos. Kerbage, engenheiro de computação com mais de 15 anos de experiência em infraestrutura de mercados financeiros, é um dos nomes mais respeitados do setor de criptoativos no Brasil e no mundo.

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O segundo fator apontado pelo gestor é regulatório. A eleição de Donald Trump, em novembro de 2024, abriu uma lua de mel entre o mercado cripto e Washington. O início de 2025 foi promissor, mas a aprovação do Clarity Act — o marco regulatório em debate no Congresso americano — não veio. Com as eleições de meio de mandato se aproximando, crescem as dúvidas sobre quando virá.

“O grande desafio dessa indústria é ter uma clareza regulatória que seja perene, que não esteja sujeita ao governo da vez”

— Samir Kerbage, sócio-fundador e CIO da Hashdex

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O ciclo de quatro anos que o gestor previu

O terceiro fator é o mais intrigante — e, segundo o próprio Kerbage, o mais relevante para explicar o que aconteceu. Trata-se do ciclo de quatro anos que historicamente marca os criptoativos. Em janeiro de 2023, o gestor publicou uma análise indicando que outubro de 2024 seria o início de um bear market e que outubro de 2025 marcaria a reversão, “se a história rimasse”. O roteiro se cumpriu com precisão desconcertante.

A explicação para esse padrão não é mística — é comportamental. O mercado de cripto tem uma base grande de investidores de varejo que se ancoram nesses ciclos e nessas narrativas. À medida que o final do ciclo se aproximava, investidores que haviam lucrado muito começaram a realizar posições preventivamente. “Isso acaba movendo o preço porque tem muito investidor de varejo que se ancora nessas teses e nessas profecias de quatro anos”, explicou o CIO.

O resultado foi uma pressão vendedora concentrada num momento de baixa demanda. As ações de tecnologia sofriam simultaneamente, retirando do mercado os compradores que normalmente absorveriam esse fluxo. “Teve uma correção muito grande por um fluxo vendedor muito relevante no momento em que não tinha muito comprador”, resumiu Kerbage. A tempestade perfeita estava armada.

Apesar do cenário adverso de curto prazo, o gestor é categórico ao dizer que o histórico passado do Bitcoin não deve ser projetado mecanicamente para o futuro. A razão é simples: a infraestrutura do mercado está mudando de forma profunda, e com ela, o perfil do próprio ativo.

ETFs e institucionais transformam a estrutura do mercado

A aprovação de ETFs de Bitcoin nos Estados Unidos — com a BlackRock e outras grandes gestoras lançando produtos — representa uma virada estrutural. Fundos de pensão, endowments e seguradoras passaram a ter acesso regulado ao ativo. Mecanismos de hedge que antes não existiam foram introduzidos. A liquidez cresceu substancialmente. “Cripto existe há um pouco mais de 10, 15 anos como um grupo, além do Bitcoin, e ele está sempre mudando, está sempre evoluindo”, disse o gestor.

Esse processo tem uma consequência paradoxal: a entrada de institucionais e os instrumentos de hedge tendem a reduzir a volatilidade e aumentar a correlação do Bitcoin com outras classes de ativos. No curto prazo, isso pode diminuir parte do apelo do ativo como diversificador puro. No longo, fortalece sua credibilidade e pavimenta o caminho para sua adoção mais ampla.

Para o investidor pessoa física, a recomendação da Hashdex é clara: tratar o Bitcoin como tese de crescimento estrutural de longo prazo, não como instrumento tático. “A gente compara o momento que a gente está em cripto com a internet no começo dos anos 2000”, afirmou Kerbage. “A gente sabe que é o futuro, mas não sabe exatamente quando, não tem clareza regulatória, não é utilizada ainda de forma ampla pela população — e em 10, 20 anos a gente não consegue mais viver sem a internet.”

Isso não impede o uso tático, especialmente num ambiente de alta volatilidade como o atual. Mas a alocação estrutural de longo prazo, segundo o gestor, é o que realmente faz sentido. Sobre a questão de o Bitcoin já ser “too big to fail” — grande demais para falhar —, Kerbage é prudente: reconhece o efeito de rede relevante e a adoção crescente, mas se recusa a declarar o ativo livre de riscos. “Eu acho que é um ativo de risco, então eu não assumiria que já está tudo resolvido”, disse.

Os riscos que ainda podem atrasar a trajetória

Com a tese que considera “mais forte do que nunca”, Kerbage ainda assim elenca riscos concretos. O principal é geopolítico. Um governo americano hostil ao setor poderia, em momento de tensão econômica, impor controles de capitais ou decretar o banimento do Bitcoin. “Isso seria um cenário catastrófico, pelo menos que atrasaria bastante o desenvolvimento dessa tecnologia”, avaliou. O precedente existe: em 2021, a China baniu primeiro o uso e depois a mineração de Bitcoin, atrasando o setor por anos.

O segundo risco é tecnológico. O avanço da computação quântica levanta a hipótese — ainda distante, mas mapeável — de que computadores suficientemente poderosos possam quebrar a criptografia que sustenta a rede Bitcoin. É um risco que a indústria acompanha com atenção, mesmo sem considerar iminente.

Feito o balanço, porém, o saldo é positivo. A oferta de Bitcoin é previsível e decrescente por design. A demanda cresce de forma exponencial. O mundo se digitaliza. A desconfiança em relação a governos e moedas soberanas aumenta. “Todos esses ventos estão a favor do Bitcoin”, concluiu Kerbage.

Para a Hashdex, o ativo não apenas resistiu à turbulência recente como saiu dela com sua tese de longo prazo mais robusta do que antes.

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