20 de março de 2026

​Selic em 14,75%: o que muda nos investimentos em títulos públicos e crédito privado? 

Tesouro IPCA+ ainda é o queridinho entre os títulos públicos, enquanto crédito privado exige seletividade
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O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central confirmou na última quarta-feira (18) as expectativas de parte do mercado e anunciou um corte de 0,25 ponto percentual na taxa Selic. Embora a decisão marque um alívio na política monetária, os juros permanecem em patamares restritivos, o que exige atenção redobrada do investidor na hora de calibrar o portfólio de renda fixa.

A avaliação geral de especialistas ouvidos pelo InfoMoney é de que, embora a classe continue atrativa, o momento pede foco no longo prazo e alta seletividade. 

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Títulos públicos

Apesar da redução de 0,25 p.p., a estratégia principal para quem investe no Tesouro Direto não deve mudar drasticamente. “O foco inicial do investidor deve estar no carrego; o ganho na marcação ao mercado é um bônus”, avalia Guilherme Almeida, head de renda fixa da Suno Research.

A visão conservadora sobre a marcação a mercado é compartilhada por Sérgio Samuel dos Santos, economista e especialista em fundos e previdência do Sistema Ailos. “Idealmente, o investidor deve alocar recursos tendo o carrego como principal objetivo, utilizando a marcação a mercado como uma oportunidade de antecipação de ganhos”, explica.

Para a reserva de liquidez e proteção contra a volatilidade, o Tesouro Selic segue imbatível. Ian Lima, gestor de renda fixa da Inter Asset, pontua que “uma alocação equilibrada entre Tesouro Selic, prefixados e IPCA+ pode ser uma estratégia mais adequada: quanto maior a participação do Tesouro Selic, menor a volatilidade do portfólio, mas também mais limitado tende a ser o seu potencial de retorno”.

Já para quem busca se proteger da inflação e garantir juros reais gordos, o Tesouro IPCA+ continua sendo a estrela da carteira. “O Tesouro IPCA+ se consolida como uma alternativa mais defensiva, especialmente para prazos mais longos, oferecendo um carrego robusto e a garantia de um retorno real contratado, o que se torna ainda mais relevante em caso de aceleração inflacionária”, afirma Sérgio Samuel. 

Guilherme Almeida reforça a atratividade histórica dos prêmios atuais: “hoje, essa taxa ultrapassa os 7% em termos reais para diversos vencimentos e prazos e o investidor consegue uma alocação que preserva o poder de compra”.

Nos prefixados, há uma janela de oportunidade com o corte da Selic. A redução dos juros básicos “tende a abrir, em geral, uma janela favorável de retornos futuros” no segmento, segundo Ian Lima. Para ele, os papéis de prazos intermediários – cerca de três anos – são os mais adequados para capturar o movimento atual do ciclo.

Crédito privado

O início do ciclo de cortes traz um alívio parcial muito aguardado no crédito corporativo, mas que não apaga os desafios no segmento. O corte de 0,25 ponto percentual na Selic começa a aliviar a pressão no caixa das empresas, e os agentes do mercado já traçam a estratégia para capturar os ganhos desse novo momento.

Gabriel Pereira, head de research da Blox, explica que o alívio na taxa básica tem um impacto direto nos preços dos papéis. Segundo ele, com o ciclo se materializando, “o efeito sobre o crédito privado tende a ser duplo: compressão de spreads, já que a maior liquidez no sistema direciona capital para ativos que ofereçam prêmio sobre a taxa básica, e valorização de ativos indexados ao CDI com duration mais longa, que se beneficiam da redução da taxa de desconto”.

Para Pereira, a estratégia agora deve ser ágil, já que quem se posiciona rapidamente captura “tanto o carrego elevado quanto o ganho de capital na marcação a mercado quando os spreads comprimirem”. 

Apesar do otimismo com a queda de juros, os episódios recentes de reestruturação de gigantes como Raízen e GPA ainda impactam o mercado e exigem um filtro rigoroso. Cristiano Luersen, sócio da Wiser Investimentos, diz que “não é momento de ‘pegar tudo que paga mais’, é momento de escolher com precisão. Empresas com fluxo de caixa robusto, dívidas proporcionais ao seu tamanho — aquelas que conseguem pagar juros e amortizações sem apertar o cinto demais — e setores menos sensíveis à taxa de juros ganham prioridade”.

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Luersen ressalta, no entanto, que o susto com a Raízen abriu janelas de entrada. “O que vimos foi uma reprecificação do risco, não um pânico sistêmico. Papéis de alta qualidade foram arrastados pela queda geral de preços, e aqui está a oportunidade que muitos gestores estão vendo: quando o mercado castiga indiscriminadamente, os bons nomes acabam oferecendo retornos muito atraentes.”

Para navegar com segurança, os especialistas recomendam focar em setores defensivos. Luersen destaca áreas como infraestrutura, energia renovável e saneamento, que “oferecem receitas mais estáveis e menos sensíveis ao ciclo econômico”.

Como instrumento, ele aponta as debêntures incentivadas de infraestrutura de alta qualidade (ratings AA e AAA) como as “campeãs de audiência”. O varejo, por outro lado, foi eleito por Gabriel Pereira como o setor a ser evitado devido à combinação de margens apertadas e dependência de capital de giro.

Há, ainda, quem prefira buscar alternativas fora do crédito corporativo tradicional, blindando-se das incertezas que restaram do longo período de juros altos. Eduardo Furuie, cofundador da Nexa, alerta que o estrago do ciclo anterior ainda pode deixar sequelas. “A decisão do Copom, por si só, não muda estruturalmente a estratégia de alocação. Estruturas montadas no ciclo de juros baixos não estão se sustentando”, adverte.

Para Furuie, o investidor deve diversificar. “As melhores oportunidades hoje estão em ativos alternativos, onde o prêmio não decorre da deterioração do crédito, mas da complexidade e das ineficiências do mercado”, avalia o especialista. 

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