15 de março de 2026

​Tensão geopolítica, IPCA alto e balanços: o que fez o Ibovespa cair 2,55% nesta 5ª 

Noticiário é movimentado e teve forte impacto em ações domésticas
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Após três sessões de recuperação parcial, o Ibovespa voltou a mergulhar em correção, neutralizando a retomada que havia sustentado desde a última segunda-feira. Nesta quinta-feira, 12, o índice da B3 oscilou dos 178.494,99 até os 183.991,88 pontos, na máxima do dia que, praticamente, correspondeu ao nível de abertura (183.968,48).

Ao fim, marcava 179.284,49 pontos, em queda de 2,55%, no que foi a sua maior perda diária desde 5 de março, há uma semana. O giro financeiro foi de R$ 35,6 bilhões nesta quinta-feira. Na semana, o Ibovespa cede agora 0,04%, colocando o recuo do mês a 5,03%. No ano, sobe 11,27%.

Investidores da bolsa paulista também repercutiram uma bateria de resultados corporativos, incluindo os números de Yduqs (YDUQ3), Cogna (COGN3), Vibra (VBBR3), Brava (BRAV3) e Azzas 2154 (AZZA3), entre outros.

Entre as ações de primeira linha, apenas as de Petrobras (PETR3 ON +1,45%; PETR4 PN +0,45%) conseguiram escapar do tom negativo que prevaleceu desde a manhã, acompanhando a uma boa distância o petróleo, que voltou a disparar nesta quinta-feira, em alta de mais de 9% para Brent e WTI, em Londres e Nova York.

Principal ação do Ibovespa, Vale ON (VALE3) fechou em baixa de 0,76%. As perdas entre os grandes bancos, setor de maior peso no índice, chegaram a 4,44%, em Santander Unit (SANB11), no fechamento. Na ponta ganhadora do Ibovespa, além de Petrobras, destaque também para SLC Agrícola (SLCE3 +4,34%), MBRF (MBRF3 +3,16%) e Braskem (BRKM5 +1,33%) – apenas sete dos 85 papéis que compõem a carteira teórica fecharam o dia em alta. No campo oposto, CSN (CSNA3 -14,45%) após o balanço do quarto trimestre, ao lado na sessão de Yduqs (YDUQ3 -14,83%), Embraer (EMBR3 -11,01%) e Vibra (VBBR3 -7,48%).

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“A escalada das tensões fez o preço do petróleo disparar novamente, com o barril do petróleo Brent voltando a superar, hoje, a marca de US$ 100”, diz Luise Coutinho, head de produtos e alocação da HCI Advisors. “Para conter o repasse aos preços internos, o governo zerou impostos sobre o diesel para evitar que o combustível suba demais nos postos. E, para compensar essa perda de arrecadação, foi criado um imposto sobre a exportação, o que ajudou as ações da Petrobras (PETR3/PETR4), mas prejudicou empresas menores do setor, como Brava (BRAV3 -6,72%).”

“Enquanto Petrobras atua também no refino e na venda para o mercado interno, que tende a ser beneficiado por aumento de consumo com preços menores para o diesel, o modelo de negócios de Brava (BRAV3) e Prio (PRIO3 +0,25%), como produtoras independentes de petróleo, envolve maior exposição ao preço internacional do barril e menos ao mercado de combustíveis doméstico. Medidas de hoje não geram benefícios diretos para essas empresas, então o mercado acaba realizando lucro ou ajustando posição nessas ações”, diz Gustavo Trotta, especialista e sócio da Valor Investimentos.

O governo informou nesta quinta-feira que estima redução de R$ 0,64 por litro nos preços do diesel nas refinarias, com as alíquotas zeradas de impostos federais na importação e comercialização desse combustível. A isenção do PIS/Cofins do diesel representa R$ 0,32 por litro na refinaria. Além disso, haverá subvenções, somando outros R$ 0,32 por litro. As medidas são temporárias e foram anunciadas diante da escala do conflito no Oriente Médio.

O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, disse que a zeragem das alíquotas de PIS e Cofins sobre o diesel e as subvenções ao combustível vão custar R$ 30 bilhões para o governo. A expectativa é de que esse montante seja totalmente compensado pelo imposto de 12% sobre exportações de petróleo, ele afirmou, durante entrevista coletiva.

Em meio às incertezas e à tensão global, ressalta Luise, da HCI, os investidores continuam a vender ações, pressionando o Ibovespa, e o dólar segue em alta, com a busca por proteção e liquidez na moeda americana. Assim, volta a ser negociado, à vista, acima do limiar de R$ 5,20, refletindo também fluxo de saída de recursos da Bolsa que, entre meados de janeiro e o fim de fevereiro, passou por uma série de renovações de máximas históricas, sustentada pelo ingresso de fluxo estrangeiro.

No fechamento desta quinta, o dólar à vista mostrava alta de 1,61%, a R$ 5,2423. Em Nova York, os principais índices de ações fecharam em baixa: Dow Jones -1,56%, S&P 500 -1,52% e Nasdaq -1,78%.

“Cenário claríssimo de aversão a risco na sessão, e também com surpresa negativa na agenda doméstica, em que o destaque foi o IPCA acima do consenso para o mês de fevereiro”, aponta Felipe Cima, analista da Manchester Investimentos, destacando que a inflação de serviços, em especial, segue pressionada.

O IPCA do mês passado subiu 0,70%, frente a consenso do mercado financeiro de alta de 0,63%, na margem, conforme o Projeções Broadcast.

“Com petróleo no nível em que está e a inflação doméstica também surpreendendo negativamente, houve um rearranjo nas expectativas para o Copom na semana que vem (dia 18), em que o mercado passa a projetar um início mais cauteloso para o ciclo de cortes da Selic, com uma redução de apenas 0,25 ponto porcentual nesta reunião”, acrescenta Cima.

Marcos Praça, diretor de análises da Zero Markets Brasil, aponta que o Ibovespa devolveu praticamente todos os ganhos da semana. Mesmo com Petrobras subindo, o índice foi derrubado principalmente pelo tombo dos bancos e pelo aumento generalizado da aversão a risco.

“Em NY, o humor também foi negativo, porque cresce a avaliação de que essa guerra pode durar mais do que Trump vinha sinalizando e, principalmente, ter efeito inflacionário suficiente para afastar a chance de corte de juros pelo Fed no curto prazo”, aponta.

“No fim das contas, o mercado está operando uma combinação bem tóxica: petróleo em forte alta, inflação pressionada, dólar forte, juros subindo e perda de apetite por risco. E o ponto central agora é que já não se trata apenas de ume vento geopolítico isolado. O fechamento de Ormuz, os ataques a petroleiros e o discurso mais agressivo da nova liderança iraniana colocam em xeque o equilíbrio energético global e tornam o cenário muito mais difícil tanto para os bancos centrais quanto para os ativos de risco”, conclui.

(com Estadão Conteúdo e Reuters)

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