Banco aponta risco de forte ruptura por inteligência artificial e vê alta nas taxas de inadimplência; mercado reage a vendas de ativos e comparações com 2008
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Algumas semanas atrás, analistas do UBS traçaram um cenário pessimista para a inadimplência no setor de crédito privado. A perspectiva agora ficou mais negativa.
Estrategistas liderados por Matthew Mish afirmam que as taxas de default no crédito privado podem subir para até 15%, dois pontos percentuais acima da projeção feita há menos de um mês, caso a inteligência artificial provoque uma ruptura “agressiva” entre empresas tomadoras de crédito.
“O que é novo: um catalisador mais claro — uma ruptura rápida e severa da IA”, escreveram os estrategistas do UBS em relatório divulgado na terça-feira (24).
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Os credores diretos, que tiveram papel central no financiamento de empresas de software nos últimos anos, agora parecem expostos ao impacto da IA, o que levou a comparações com a crise financeira de 2008. Algumas estimativas indicam que essas gestoras têm cerca de 40% dos empréstimos a empresas apoiadas por private equity concentrados no setor de software.
Os alertas sobre a indústria de US$ 1,8 trilhão vêm se acumulando nos últimos dias, após a decisão da Blue Owl Capital de fechar permanentemente as janelas de resgate de um de seus fundos e vender ativos. O movimento provocou uma queda de US$ 2,4 bilhões no valor de mercado da empresa e pressionou ações de outras gestoras de crédito privado, como Ares Management, Blackstone e Apollo Global Management.
O relatório do UBS destaca que a inadimplência no crédito privado atualmente está entre 3% e 5% e que sinais de estresse, como o aumento do uso de juros pagos em espécie (PIK), estão próximos dos níveis mais altos desde o período pós-pandemia.
Falando na conferência iConnections Global Alts, em Miami Beach, o investidor ativista Boaz Weinstein — cuja Saba Capital tenta adquirir participações em três fundos da Blue Owl com desconto relevante em relação ao valor declarado — alertou para o risco de “as rodas se soltarem” no crédito privado.
Já o gestor Danny Moses, conhecido por sua atuação retratada em The Big Short, afirmou que o avanço agressivo dos mercados privados sobre produtos voltados ao varejo lembra os anos que antecederam a crise das hipotecas subprime.
No início da semana, o CEO do JPMorgan Chase, Jamie Dimon, reforçou alertas anteriores sobre “baratas” no mercado de crédito, criticando o que chamou de “coisas estúpidas” feitas por alguns credores e destacando semelhanças com o período pré-crise.
Venda de ativos aumenta tensão
Esses alertas ganham força num momento em que as business development companies (BDCs), credores diretos com ações negociadas em bolsa, enfrentam pressão para devolver capital aos investidores. A New Mountain Finance Corp. anunciou na terça-feira a venda de quase US$ 500 milhões em ativos com desconto de 94 centavos por dólar.
Embora a empresa já tivesse sinalizado o movimento no fim do ano passado — como parte de uma estratégia para diversificar a carteira, aumentar flexibilidade financeira e reduzir dependência de receitas PIK — o momento da venda ampliou a cautela do mercado.
Analistas do Citigroup Inc. apontaram que uma alternativa para as BDCs levantarem caixa pode ser vender ativos para estruturas de obrigações de empréstimos colateralizados (CLOs). Esse movimento, segundo eles, pode multiplicar a alavancagem em até dez vezes e mascarar riscos.
Nem todos veem crise sistêmica
Ainda assim, há quem considere o pessimismo exagerado. Yuji Maeda, diretor sênior de investimentos da Nomura Asset Management, escreveu em relatório que uma contração relevante no mercado de crédito privado é improvável.
A atividade de fusões e aquisições voltou a ganhar força após anos fracos, criando novas oportunidades para credores diretos. O aumento do capital vindo de seguradoras para os mercados privados também impulsiona contratações e acordos, além de estimular o crescimento do financiamento baseado em ativos.
Em evento em Miami, o gestor Dan Loeb anunciou planos de sua gestora Third Point para lançar uma BDC em 2 de abril. Embora reconheça que o mercado deve enfrentar algum estresse devido à exposição ao setor de software, Loeb demonstrou confiança na capacidade de superação.
“A má notícia é que muitos desses empréstimos serão afetados, mas eles não representam todo o portfólio em que estão investidos”, afirmou. “Não há um cenário de corrida bancária, porque há correspondência entre ativos e passivos.”
O CEO da Brookfield Corp., Bruce Flatt, também minimizou comparações com a crise financeira. Segundo ele, o setor de crédito privado ainda é relativamente pequeno dentro do mercado global de crédito. “Não é uma situação sistêmica”, disse à Bloomberg Television.
Inquietação no crédito
Mesmo assim, a possível disrupção causada pela IA no setor de software segue como principal foco de preocupação. As bolsas caíram no início da semana após relatório da Citrini Research projetar um cenário em que os avanços da IA poderiam levar a taxa de desemprego nos EUA para dois dígitos até 2028.
O impacto pode ir além do crédito privado. Os estrategistas do UBS também veem risco maior de defaults em empréstimos alavancados e títulos de alto rendimento nos EUA, com projeções de até 6% e 10%, respectivamente, em um cenário adverso — acima das estimativas anteriores de até 4% e 8%.
Para Bob Michele, chefe global de renda fixa da JPMorgan Asset Management, os mercados de dívida alavancada ainda podem se beneficiar de uma economia saudável, desde que não haja grandes rupturas.
“O que preocupa a todos é que ainda não houve um ajuste no crédito privado”, disse à Bloomberg TV. “Uma recessão é o ajuste final.”
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