Analistas veem possível fim na taxa como negativa para empresas brasileiras listadas, mas veem motivos para companhias estarem mais preparadas hoje
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No início da semana, uma notícia abalou as ações de varejistas:o possível fim da “taxa das blusinhas”, levando ações de empresas como Lojas Renner (LREN3) e C&A (CEAB3) a caírem mais de 4% na segunda-feira (30).
A possível iniciativa surge no contexto das preocupações do governo com o aumento do custo de vida, enquanto pesquisas internas sugerem que a introdução desse imposto foi um ponto crítico relevante para sua popularidade.
Apesar da visão a princípio negativa para as empresas de varejo, além de suscitar reações de associações do setor, analistas de mercado e as próprias companhias destacaram fatores para não temerem tanto mudanças na taxação.
Logo após a notícia, o JPMorgan ressaltou que a remoção do imposto de importação seria negativa para os varejistas de vestuário que o banco acompanha (LREN3, CEAB3 e RIAA3), pois isso contribuiria para aumentar novamente a diferença de preços entre os varejistas estrangeiras e os locais, prejudicando a receita bruta.
Ainda assim, observou que o governo federal atualmente cobra cerca de 20% de imposto, enquanto os estados cobram cerca de 20% de ICMS. Como resultado, acredita que uma possível remoção afetaria aproximadamente metade da tributação efetiva (a parcela federal), enquanto o imposto estadual deveria permanecer em vigor, aponta.
O JPMorgan reforça que, mesmo que o projeto seja aprovado (não há confirmação neste momento), o setor não deve retornar a um cenário de tributação praticamente zero, como era no passado, quando a regulamentação era frouxa e a auditoria de importações era mínima. De qualquer forma, esse fluxo de notícias deve continuar a gerar ruído no setor.
Também na avaliação do BTG Pactual, qualquer revisão dos impostos de importação deve ser negativa para os varejistas locais, trazendo pressão sobre os preços, embora não na mesma medida que no passado.
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Os analistas do banco lembram que o setor de vestuário entrou em uma fase competitiva decisiva, marcada pela penetração acelerada de plataformas estrangeiras. Esses players se beneficiaram inicialmente de assimetrias tarifárias, possibilitando modelos de negócios altamente subsidiados e domínio nas categorias de baixo valor médio de cesta (AOV). No entanto, a mudança de política de 2024, que introduziu um imposto de importação de 20% + ICMS sobre remessas de até US$ 50, provocou uma queda acentuada nos volumes de encomendas internacionais nos primeiros meses de implementação, reduzindo, mas não eliminando, sua vantagem competitiva.
Após a introdução da “taxa das blusinhas”, os volumes de encomendas caíram drasticamente — uma queda inicial de cerca de 11%, passando de aproximadamente 18 milhões de encomendas/mês antes da taxa para cerca de 11 milhões em dezembro de 2024. Dito isso, nos últimos meses, os volumes de importação já estavam próximos dos níveis anteriores à taxa (15- 17 milhões de encomendas/mês).
“Apesar do recente aumento nos volumes, os varejistas locais de vestuário continuam a ganhar participação de mercado, apoiados por uma melhor execução e investimentos na variedade de produtos e preços, aumentando a eficácia das vendas”, avalia.
Mesmo com os desafios que os players estrangeiros enfrentaram no Brasil nas últimas décadas (incluindo a introdução de impostos de importação), o BTG ainda vê a maioria dos players expostos a consumidores de média/baixa renda lutando contra uma concorrência mais acirrada das plataformas internacionais e um poder de precificação limitado, sendo que essa dinâmica também afeta players como Renner, C&A e Guararapes.
“De acordo com nossa pesquisa proprietária, comparando uma cesta de 8 produtos entre varejistas locais (Renner, C&A, Riachuelo) e a Shein, a plataforma chinesa é 6% mais barata que a Riachuelo, 10% mais barata que a Renner e 13% mais barata que a C&A. Em comparação com nossas pesquisas de 2024/2025, a diferença de preço entre a Shein e os players locais diminuiu”, aponta.
Para o banco, a revisão dos impostos de importação deve levar em conta três pontos. Primeiro, a magnitude da pressão sobre os preços dependerá se a revogação do imposto for parcial ou total e, no pior cenário, se ela também incluiria o ICMS cobrado sobre esses produtos (muito menos provável). Segundo, os players locais tornaram-se mais competitivos e ágeis diante da concorrência, com investimentos significativos voltados para melhorar a assertividade dos produtos. Terceiro, o posicionamento das plataformas também não permaneceu estático, refletindo um número maior de vendedores nacionais e investimentos em infraestrutura logística local.
“Durante os anos de maior pressão competitiva (2023-2024), o crescimento da receita entre as empresas listadas ficou abaixo/próximo de 5%, mas consideramos que os players locais estão agora mais bem preparados para enfrentar uma concorrência mais acirrada em um cenário pessimista”, avalia.
Os analistas reforçam que há desafios no varejo: as altas taxas de juros continuam a corroer a renda disponível, enquanto a alavancagem das famílias, ainda elevada, restringe o poder de compra. Esse cenário é agravado pela inflação acumulada nos últimos anos, que elevou estruturalmente os níveis de preços e reduziu a acessibilidade real. Enquanto isso, a concorrência do e-commerce e de players internacionais continua a limitar a alavancagem operacional das empresas estabelecidas no setor.
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“Embora concordemos que as empresas com maior exposição a famílias de renda mais alta estejam potencialmente mais protegidas contra a turbulência macroeconômica no Brasil, a recente onda de quedas das ações fez com que os múltiplos em todo o setor de moda parecessem baratos. Em média, o segmento é negociado atualmente a 8x P/L [preço sobre lucro] para 2026, já precificando uma perspectiva de consumo de curto prazo mais pessimista no Brasil, especialmente no 1º semestre de 2026”, conclui.
Especificamente sobre a Renner, o Goldman Sachs destacou as impressões dos próprios executivos da companhia após conversa com o banco.
A administração da Renner reconhece o risco regulatório com a mudança nas “taxas das blusinhas”, mas avalia que o impacto competitivo hoje seria menor do que no passado.
Também há destaque que os tributos estaduais tenderiam a permanecer, mesmo em um cenário de retirada do imposto federal, limitando a vantagem de preço das plataformas internacionais; a Renner hoje tem uma cadeia de suprimentos mais eficiente e flexível do que em 2022–2023, período em que a concorrência externa ganhou força; e os ganhos recentes em gestão de estoques, redução de lead time e menor necessidade de remarcações permitem à companhia competir mais pela proposta de valor — e não por aumento de preços.
Na visão do Goldman Sachs, mesmo que haja uma flexibilização tributária para importações, a Renner estaria melhor posicionada hoje para enfrentar esse cenário, graças à escala, à integração da cadeia produtiva e à capacidade de reação mais rápida a tendências de moda — vantagens que plataformas internacionais dificilmente replicam no curto prazo.
O Goldman Sachs reforçou sua visão positiva para Renner ao afirmar que a companhia começa a colher os frutos de um amplo ciclo de investimentos em supply chain, tecnologia e digitalização. Após reunião com a administração, o banco reiterou recomendação de compra e manteve preço-alvo de R$ 20.
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